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quinta-feira, 24 de março de 2011

melancolia e saudade

O "sentimento" da melancolia parece inscrever-se numa constelação de afecções da alma que vão da tristeza à angústia, sem esquecer o tédio. Na medida em que pertence à esfera do "psicológico", há interferências entre esses três "estados da alma", em especial entre a tristeza e o tédio. A angústia, essa, é mais nítida. Menos indistinta, leva o ser à beira da própria negação. Mais não é, aliás, que a vida subtraída ao futuro, asfixiada por um presente sem dimensões. [...] De certa maneira, o anustiado tem excesso de vida e de impaciência; não compactua com o futuro nem projeta nele as cores da sua angústia. Ao contrário da melancolia, a angústia não comporta o "jogo" com o tempo - tudo é urgência, a própria memória fica como que em suspenso. O campo próprio da angústia é o da imaginação, imaginação do pior, em que o real fica de fora. O tédio, pelo contrário, remete-nos para o real, para o tempo, mas não para o jogo do tempo[...]. A realidade está a mais, e nós também. nâo precisamos pedir ao Tempo que suspenda seu vôo, como no poema em que a Melancolia romântica se encenou. Está já suspenso, ou melhor, roda invariavelmente em torno de si mesmo...

[Eduardo Lourenço - Mitologia da Saudade]

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

ninguém sabe.

mas a verdade é que me falta qualquer coisa. qualquer coisa que ri, qualquer coisa que chora. me falta qualquer coisa de belo, de azul, de triste e de contente. me faltam palavras. me faltam coisas.

e outras me sobram. aos borbotões. desmancho-me em melancolia e saudade, em tédio e abandono. construo-me em risadas para precaver o grito histérico que quer brotar dos meus lábios.

nesses dias de sol, me pego a pensar que algumas coisas poderiam ter sido diferentes. eu só não consigo saber quais. enquanto isso, espero meu carpete de flores, que virá quando o carnaval chegar.



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

suas palavras me doeram

ler as palavras dela doeu na minha alma.
e compaixonei-me.
sem piedade, sem ironia.
fui sentir na carne a dor que não mais minha, mas que conheço tão bem.

e, diante da imobilidade, chorei.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

É tudo um grande engano


Eu queria, meu bem, eu juro que queria saber fazer joguinhos.


Seria bem melhor pra mim, acredite.

Mas eu também queria que você soubesse que eu não te amo. Nem sequer estou apaixonada. Você é ótimo, é verdade. Mas vale bem menos do que pensa.

E eu valho bem mais do que você me credita. A verdade é que possivelmente eu sou a melhor coisa que passou pela sua vida nos últimos tempos, com todo respeito a todas as mulheres que você comeu. E que não foram poucas. Mas eu sou melhor que elas, eu sei. Eu sinto.

Não se espante, não te quero pra marido, namorado, nada dessa coisa de vivermos eternamente juntos e sermos felizes para sempre. Não. Eu só queria te ter mais uma vez. Só mais uma. Sabe aquele lance "te levo pro motel, te como direitinho, de deixo em casa com beijinho de boa noite e acordo amassado em casa, sozinho"? Então, bem isso. Estou nessa vibe também.

Acontece que você pensa que eu sou outra coisa, que eu quero outra coisa. Mas não. Sei que a culpa é minha: o sangue italiano me deu essa coisa de ser intensa, chorar, gritar, rir, gemer e amar com muita facilidade. Mas olhe, se assuste não: é só sexo.

Agora vê se larga disso, venha cá e coma-me, por favor.

domingo, 8 de agosto de 2010

Palavras de amor ao léu

entre os que desdenham e os que juram amor demais, eu fico com um bom samba, cachaça e saudade.

eu só queria saber direitinho por onde andarão nossos caminhos.

ou queria saber fazer joguinhos. queria não ligar. queria entender vossas cabeças.

sim, tem horas que eu queria ser homem, bêbado e sambista. maldita sociedade falocêntrica.

é que, por mais inocente que seja, ainda há alguma poesia na bebedeira dos velhos poetas.

mas tudo isso não passa de paranóia feminina, você dirá. dirão todos. direi eu, inclusive.

o que ninguém sabe, desconfio, é que bastariam poucas coisas para essa paranóia passar.

maldita tpm.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Receita para curar soluço

Aperte o dedo médio da mão direita, na altura da primeira junta (entre a primeira e a segunda falange).

Em seguida, tome água; três goles, na posição normal. Depois tente tomar os mesmos gole de ponta cabeça.

Após isso, tome um susto, daqueles de morrer três vezes.

Volte para o copo d'água: um copo inteiro, sem respirar.

Agora dê três voltas em um pé só.

Se nada disso adiantar, olhe para o homem que te faz sofrer e mande-o à puta que o pariu.

Sucesso garantido.


(para o Ev, que sofreu uma crise de soluços, de causa aparentemente desconhecida)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

ao homem da minha vida

existem algumas coisas que você deve saber, amado homem da minha vida, se quiser de fato ser o homem da minha vida:

eu não como sushi. nem camarão, ou peixe, ou lula. esqueça de me convidar pra comer qualquer coisa que venha do mar. eu não vou.
eu adoro brócolis.
eu tenho os pés e mãos gelados. muito gelados. sempre.
eu tenho tpm, cólicas e mau-humor.
eu falo, falo, falo, até você cansar. e daí eu falo um pouco mais.
eu gosto de cafuné.
eu não gosto de tapete do banheiro embolado, nem de porta do armário aberta, ou da luz acesa quando não tem ninguém no quarto.
odeio lavar louça.
peça por favor, diga com licença e obrigado. é simpático e não faz mal a ninguém.

mas olhe, se você fizer o que eu vou dizer abaixo, você pode ter todas essas falhas, pode fazer tudo ao contrário, que eu te perdoo.

o homem da minha vida comerá azeitonas todos os dias, e será feliz. será feliz porque come azeitonas e eu.
pra quê mais?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Por um pouco de educação

Coisa que me irrita nessa vida é gente mal educada. Não estou falando daquela gente que cospe na rua, joga papel no chão - esses eu tenho raiva, nojo mesmo. Tampouco estou falando de gente que fala palavrão: faço parte deste grupo e aderi ao "direito ao foda-se" faz tempo. Palavrão é só uma palavra que as avós e os pais de alunos não gostam de te ouvir falar, nem o seu chefe, mas fora disso, por mim, tá liberado, porra.

Estou falando, quando me refiro aos mal educados, daquela gente que não aprendeu com a mãe e o pai que existem três expressões mágicas: são elas "por favor", "com licença" e "obrigado(a)". Tem gente que simplesmente te pede uma coisa, sem se dar ao trabalho de cogitar sua disponibilidade para isso. Como é que se sabe que o cidadão não pensou em você, no seu tempo, na sua vontade, etc.? Pelo simples fato dele não dizer "será que você podia, por favor, fazer tal coisa?". Se ele não parou pra te dizer um por favor, alguém ainda credita que ele parou pra pensar se você tem tempo ou vontade pra fazer o que ele quer que você faça? Duvido muito. E se tiver pensando, é pior ainda, pois pensou e não se importou com isso, a necessidade dele é mair urgente que o seu saco. 


E, no caso de eu ter errado, do cidadão ter cogitado, ter se importado e ainda assim não ter dito, é por mera comodidade e economia de tempo (dele). Vai doer, se ele disser as palavras mágicas? Não, não vai. Mas o infeliz acha que tá implícito, que não precisa, que não se usa isso mais, entre os iguais. Ainda mais se você é do tipo que, como eu, fala palavrão a torto e a direito. Cheguei a conclusão que isso passa a idéia, pras pessoas, de que você não está nem aí pra etiqueta social. Mas olha, eu to. Eu sou do tipo que pede licença até pra cachorro de rua, agradeço a formiga que saiu do meu bolo, e peço por favor pra chuva parar de me molhar. Tá eu sei que eu sou um exagero da natureza, mas, sério, custa mesmo demais pedir por favor e agradecer depois?

Eu ainda acho que essa minha mania de me importar com os outros vai me foder na vida, mas eu não desisto. Só deveria deixar de me importar. Mas não consigo.

Deixo aqui o meu manifesto solitário por um pouco mais de educação no mundo. Por favor. E obrigada.

sábado, 3 de julho de 2010

A fruta da árvore... peixinho é.

Hoje eu descobri que gosto de Marina Lima. 

É, eu sei. Datado. Esquisito. Aleatório... Talvez nem tanto.

Estava aqui, nessa madrugada esquisita de sábado, pensando em como a vida anda rápido, dá voltas, pessoas entram e saem dos nossos destinos sem o menor aviso prévio - sim, sim, aquela coisa toda muito deprê e/ou emotiva e/ou motivacional e/ou saudável que vez ou outra fazemos para arrumar as idéias (as minhas com acento, sim senhor!) e seguir nossas existências - quando uma frase pulou na frente de toda essa baderna. Seis palavras, sem mais nem menos: "eu não sei dançar tão devagar". A rima veio menos de um segundo depois "para te acompanhar". Antes que me desse conta, já pensava em Marina Lima e digitava os versos no google, buscando pelo áudio.

Marina é uma cantora que eu jamais citaria entre as minhas favoritas. Certamente não entraria em nenhuma lista consciente que eu pudesse ter feito nos últimos anos, e provavelmente jamais figuraria em uma conversa minha com algum amigo. Mas ela surge assim, do nada, quando tem que vir.

Marina é a cantora da minha infância, de quando lembro da minha mãe ouví-la no aparelho de som a todo volume, e me chocar  - aquele choque de incompreensão - com versos que diziam "é que eu tô grávida, grávida de um beija-flor, grávida de terra, de um liquidificador. E vou parir um terremoto, uma bomba, uma cor, uma locomotiva a vapor". Lembro de pensar coisas como "Como pode alguém cantar que está grávida?" Grávida parecia uma palavra tão feia para "esperando neném"... E ainda por cima esperando um trem! Entre choques e desgostos, cresci ao som de Marina. 

Foi dela a minha primeira versão de Fullgás, foi Marina que me contou o que era topless e que as meninas andavam de bundinha de fora. Conheci o primeiro carente profissional com ela. Por essas e outras, como não gostar de Marina? Como não ter Marina no fundo do imaginário? Marina não é luxo nem lixo, Marina, em mim apenas existe. À francesa.

terça-feira, 29 de junho de 2010

chove

as marcas em minha pele anseiam dias melhores,

como os de ontem. e os de amanhã.

sinto saudades de você. todos os minutos.


estranho?


já me acostumei a estranhar-te.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

no dia em que o sol morreu

"por entre os fios dos seus cabelos,
por entre os dedos da minha mão
passaram certezas e dúvidas..."

é, ando deixando muito a desejar, por aqui.

mas eu volto, prometo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pretérito Imperfeito

amava
chorava
gritava,
matava,
sonhava
adoecia
curava
apaixonava
conhecia
partia
voltava
ensolarava
conversava
planejava
frustrava-se
viajava
retornava
revisitava
brigava
replanejava
descobria
acreditava
desabava
destruía.

.
.
.

replanta
e reconstrói
felicidade

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Here comes the sun...

Depois de muito tempo, entre chuvas e tempestades, pancadas esparsas e nublados esquisitos, eis que lá vem o sol.

No fim do dia, aos 45 do segundo tempo, ele chega, belo e formoso, pra nos mostrar que, como sempre, por mais longo e frio que tenha sido o inverno sempre há promessas de primavera. 

E quem me conhece, sabe que eu sou sempre a última a notar que a primavera está batendo à porta. E sabe que essa primavera não segue o tempo cronológico. Dessa vez ainda tenho a desculpa de dizer que estou nas estações de outro hemisfério, ainda bem.

E é incrível como o céu parece mais bonito depois de tempestades, como o ar fica mais puro e como o sol brilha mais forte, ainda que num fim de tarde sem graça de uma quarta-feira. E assim quase me despeço de São Paulo, terra-mãe minha, por fato, e preparo-me pra ver como brilhará o céu de Florianópolis, terra-mãe de direito. As cores que guardo na lembrança possivelmente não existem mais, e será bom que seja assim, pois eu não brilho mais da mesma forma. Brilharemos, ambas, de maneiras diferentes, mas, espero, compatíveis.

O que foi é "ido". Rei morto, Rei posto, and God save the Queen. Sou rainha do meu destino, e brilho lindamente sobre a tempestade que se armou. Sobrevivi, chacoalhei, me assustei e cheguei a rezar. E quis o destino que a ironia andasse sempre ao meu lado. Somos amigas, eu e ela, agora. Ironicamente, a vida tem outro sabor. Resta-me descobrir que sabor é esse. 

And I just can't wait for it.

terça-feira, 16 de março de 2010

Madrugada

Já não consigo dormir sem ter teu corpo ao meu lado;

Você me diz bobagens, sussurra indecências ao meu ouvido, reclama do tempo que não passa e me fala de urgência.
Concordo, impotente, e por sobre os continentes e linhas, entre os oceanos, paralelos e meridianos, chegamos à beira do abismo. A urgência se faz imediata, emergência, instantânea. Sussurros, gemidos, corpos indistintos. Nós dois a nos perdermos em nossos próprios corpos.
E dez, ou vinte, ou quarenta ou sessenta minutos depois, quando é hora de morrer, a tua voz tranquila me dá boa noite, do outro lado do mundo.

Mas o caso é que eu já não consigo dormir sem te ter ao meu lado.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

As mariposas vão pousar

Ela tinha se esquecido como era bom.  Tinha esquecido o poder de renascer, de se refazer, de reinventar-se e ressugir nova, vistosa.

Tinha esquecido, logo ela, que as levava impressa na pele, sobre a nuca. Tinha esquecido das borboletas.

Esquecera-se das conversas pela madrugada; esquecera-se de como compartilhar as pequenas bobagens da vida. Esquecera-se de como era rir de coisas pequenas. Esquecera-se de como era corar ao som de uma risada. Esquecera-se de como era dizer "tenho medo", e ser protegida, acalentada.

Mas ela sabia que ele lhe mostraria. E ela, em casa enfim, se lembraria.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

sob medida

Se você crê em Deus
Erga as mãos para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece

(Chico Buarque)

(o vídeo é péssimo, mas era o único do youtube que tinha o Chico cantando. Fafá de Belém e Simone num rolava)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Choose life...

(novembro de 2009)

a vida que eu escolhi não tem luxos: não tem riquezas, hotéis cinco estrelas, viagens pelo mundo. a vida que eu escolhi não tem glamour.
a vida que eu escolhi é construída a cada dia: pensando que, no fim do mês, pode ser que não dê pra comprar aquela blusa nova, já que abusei no meio do caminho.
a vida que eu escolhi é simples, mas tem seus momentos de glória. Aliás, tem muitos desses momentos. momentos singelos, como um café da manhã na cama, um beijo de boa noite, ou um carinho nos cabelos, pra fazer dormir.

a vida que eu escolhi tem o conforto de um abraço, um beijo, uma calçada ensolarada, num jardim de um museu. e a beleza do por do sol que se seguiu.
a vida que eu escolhi tem a singeleza de um gesto, uma pequena orquídea amarela, numa noite chuva, vento e frio. e terá o calor de um cálice de vinho, e um filme não acabado.
a vida que eu escolhi tem a alegria de ganhar uma canção, que não tocará nas rádios do mundo, mas que foi feita só pra mim, enquanto eu dormia calmamente no sofá. ou no quarto. ou na casa da minha mãe.

a vida que eu escolhi tem umas coisas inexplicáveis, como passar a tarde sentada num banco de loja, falando bobagens, e me sentir plena. ou atravessar a cidade apenas pra almoçar junto.

a vida que eu escolhi me inunda de felicidade, quando ouço uma canção que antes não fazia sentido.

a vida que eu escolhi é assustadora porque é real. porque tem problemas, dificuldades. porque tem passado, presente e futuro.

a vida que eu escolhi é feita de erros e acertos, muitos, muitos erros. e alguns acertos, bem-feitos.
ela tem a beleza dos amantes, a calma dos velhos e a energia dos infantes.
e tem jantares com amigos, planos de mudar os móveis, aventuras para instalar um armário numa cozinha oca, adotar uma gata e chamar de filha, telefonemas na madrugada, declarações de amor...
isso. a vida que eu escolhi tem, antes de tudo, amor.
e o melhor de tudo é que a vida que eu escolhi já começou. eu só espero voltar pra ela. todos os dias.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Repouso das Coisas

Mais uma coisa que eu li, gostei e compartilho. Recebi esses dias, o maravilhoso cumprimento de que meu estilo textual lembrava o da Martha Medeiros. Se é verdade ou não, nunca saberei. Mas que me senti chique, ah, isso eu me senti. Então lembrei de um texto dela, que está no livro de crônicas "O Trem Bala". O livro tem várias cônicas boas, e, procurando por esse texto passei por vários outros que também poderiam estar aqui. Mas fica registrada então a escolha primeira. Com vocês, Martha Medeiros:

O REPOUSO DAS COISAS

Não gosto de escrever um texto e mandá-lo imediatamente para a redação do jornal. Escrevo com certa folga de tempo, para que eu possa deixar o texto dormir um sono reparador antes de jogá-lo às feras.

Assim como as pessoas, certas coisas precisam descansar para recomporem-se. No caso do texto, é fundamental para mim esquecê-lo por um pequeno período. Quando volto a poros olhos nele, horas ou dias depois, consigo detectar melhor suas falhas, repetições ou parágrafos confusos: é a hora da faxina, de limpar o que está sobrando, e só então liberá-lo para seu destino. Lamento pelos vestibulandos que não podem apelar para esse recurso, escrevendo contra o relógio suas redações, sem chance de revisá-las com a cabeça fresca.

O repouso das coisas é cada vez mais raro nesse mundo onde todos estão atrasados para alguma coisa. Diariamente, temos que decidir, optar e cumprir prazos para ontem, sem muita chance de deixar as  resoluções tirarem uma soneca antes de serem efetivadas. Fica assim prejudicada a clareza necessária para detectar nossos erros e acertos.

No calor de uma discussão, levamos a sério todas as bobagens que nos dizem, passando rapidamente para o contra-ataque e assim dinamitando a relação. Se pudéssemos levar nossa mágoa pra cama e com ela dormir, acordaríamos no outro dia enxergando-a sem maquiagem e no tamanho que ela realmente tem: miúda diante de coisas mais importantes do que as palavras rudes que, na noite anterior, escaparam sem querer.

Um sim dito às pressas, um não que foi verbalizado por medo, um silêncio onde deveria haver um argumento: vacilos póstumos. Pudéssemos botar para dormir nossas dúvidas, acordaríamos mais sábios e menos impetuosos. Mesmo as paixões velozes merecem um certo resguardo, uma espiada mais distanciada, para ver onde estamos nos metendo. Cadê tempo, porém, para o afastamento necessário de nós mesmos, para melhor nos enxergar?

A realidade não permite tais romantismos. Vence quem toma decisões rápidas, caso de cirurgiões, artilheiros, policiais, motoristas. Fica cada vez mais difícil contar até dez antes de tomar uma atitude. Sorte a minha que posso me dar ao luxo de trabalhar e viver com relativa calma, deixar esse texto dormir na escuridão do computador desligado e só amanhã acender a luz, fazer nele alguns afagos e apertar, finalmente, a tecla send. Como cantava Gal Costa, "a vida não é mais do que o ato da gente ficar/ no ar/ antes de mergulhar".

Julho de 1999