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domingo, 25 de setembro de 2011

Como sempre

Ainda sinto o cheiro de cigarro na boca, entre os dedos, preso eternamente às narinas. Aquele cigarro roubado, todas as vezes, já virou marca que nos une. Da mesma forma, o gosto amargo da cerveja bebida, a cada semana, confunde nossas cabeças e faz ver mistérios onde não há.

Você, na verdade, são vocês. A noite, em verdade, são muitas noites. E os beijos e os gostos, bem, esses são muitos também. mas vocês pensam que são únicos, e eu lhes deixo crer. Deixo viverem na fantasia de que são os maiores e que me possuem. Deixo que acreditem numa paixão desmesurada. Deixo que pensem que eu sou frágil e que suas masculinidades me podem machucar.

Assim vocês se vão enredando, perdendo o senso. E, quando tu - ou seriam vocês? - acordares, ela - ou seria eu? - não estará mais ao seu lado, evaporada com a primeira luz da manhã.

Acredita, amor, que toda mulher te pode amar. Mas assim, aviso, viverás tua perdição.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Antes do amanhecer

"Na vida é assim, a gente encontra o cinismo e perde a cerveja, a decência e o copo, tudo de uma vez só."

Foi assim que ela me disse, num fim de noite num bar qualquer. Na verdade não era um bar qualquer, era um bar decente, daqueles que a gente só encontra do lado das igrejas, nos cafundós da cidade.

Ela não era bonita, e nem sabia mesmo dançar. Além disso, reclamava o tempo todo que não deveria estar ali, pois era mulher de família. Isso, entre um gole e outro de cerveja. Mas, naquela noite, ela nos tinha a todos na mão: literalmente, ela era quem pagava a bebida. E, verdade seja dita, ela até não era má companhia. Nós quatro, cheios de gana e de hormônios, queríamos muito aquela companhia, adulta e feminina, entre nós. Era possível que quem nos olhasse percebesse o brilho carniceiro que cruzava os nossos olhares, quase lascivos, quando mirávamos nossa patrona.

Mas a moça não sabia muito o que fazer, quando o fim da noite era iminente e o retorno ao lar se aproximava. Foi aí que ela se engraçou com um malandro que passava, e havia voltado a cabeça para melhor apreciar aquelas pernas dela - sim, permitam-me dizer: a danada tinha uma pernas tão compridas que pareciam capazes de abraçar o mundo. 

O vagabundo tinha jeito de quem batia em mulher. E, foi ela quem nos disse, cachorro e macho a gente reconhece pela cara. Pois aquele bem tinha cara de cachorro. Macho que eu já não sei, porque dessas coisas eu passo longe. Mas o fato é que a desgraçada olhou pra ele, olhou pra nós, aqueles quatro garotos que não sabiam nem onde se enfiar quando ela falava algum palavrão - e ela falava tantos! - e não teve dúvidas: sem pensar no marido e nas quatro crianças sujas que deixava em casa, mandou dizer pro pai que não voltava mais e subiu na moto branca do infeliz. A última coisa de que me lembro foram aquelas palavras dela, seguidas das do João Filé:

"putaqueopariu, a vagabunda levou o dinheiro e deixou a conta pra pagar"

...

Alice Maria, esse era seu nome. Ninguém nunca mais ouviu falar.



.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Y que vengan los veinte y seis.

E chega ao fim minha juventude. ou, antes, a primeira metade dela.

Entro na segunda faixa da população: aquela que é mais economicamente ativa; a partir de agora, dimimui o valor do seguro de automóvel para as mulheres, já que chego ao auge da minha fertilidade, e mulheres assim costumam ser mais cuidadosas.

Também significa que eu já posso usar renew da Avon, ou chronos da Natura. já é hora de morar sozinha. já deveria ler Cláudia, e espera-se que em breve eu encontre um homem também economicamente ativo, que formemos um casal, que moremos em um apartamento com um gato ou cachorro e em dois ou tês anos, arrumemos para os nossos pais os tão sonhados netos. Sou adulta, enfim.

Algo assim deveria ser o plano ou o esquema da minha vida. Mas, confesso, nada disso ainda é parte efetiva dela. exceto, talvez, o lance da fertilidade, e o fim da juventude. O mundo é hoje muito diferente daquilo que eu sonhei há dez anos. infinitamente diferente daquilo que eu planejei quando tinha quinze. Confesso que é um pouco frustrante ver que vários dos seus planos se perderam no caminho, que outros continuam os mesmos mas ainda não passam de projetos, e que outros parecem cada vez mais impossíveis, mas a chegada de um novo ano, e aquele desejo de aniversário feito no soprar das (26) velinhas, renovam as esperanças desde coraçãozinho de que alguns deles sairão dessa vez do projeto. e ver quanta coisa eu fiz no ano que se passou ajuda a dar aquele ânimo bacana pra soprar todas a velas de uma vez só.

Mas a verdade é que adoro meu aniversário. quando criança, amava  o fato de ter nascido em feriado, de ter sempre folga e de pensar que o dia era só meu. quando descobri que outras pessoas compartilhavam a data comigo, a frustração primária pela perda da exclusividade logo cedeu lugar à alegria: só tem gente legal fazendo aniversário comigo, e é assim até hoje.

então não tem muito o que falar: em pouco mais de duas horas é meu aniversário, eu estou feliz, mesmo com as bordoadas que a vida insiste em me dar, pra que eu não pense o tempo todo o quão sortuda e abençoada eu sou, e não vire uma metida (mais) insuportável, e sei que aquilo tudo que eu planejei vai demorar mais um pouquinho, mas vai chegar. porque é sempre assim, com quem pega o ônibus do cacupé: a lenda tarda, mas não falha.

quinta-feira, 31 de março de 2011

vinte quatro horas

Correr, correr...
Me entupir de coisas pra fazer, de problemas mundanos pra resolver, de contas pra pagar. correr, correr...
anotar tudo que tem que ser feito em um caderninho, porque a cabeça já não dá conta de lembrar de tudo que precisa ser feito, hoje, ontem, amanhã... correr, correr...
Sair de casa bem cedo, voltar bem tarde, fazer de noite o almoço de amanhã, comer correndo e tentar dormir, nas poucas horas que me restam, antes de levantar e correr pra começar tudo de novo. correr, correr...
E viver esquecendo tudo. tantar lembrar mas não conseguir. a dieta diária de esquecer alguma coisa. exceto uma. mesmo esquecendo do almoço, ou do jantar, do lanche, do guarda-chuva, do sapato, do livro ou mesmo da aula que deveria ter sido dada, tem sempre uma coisa que eu não olvido. É sempre uma coisa a me martelar a cabeça.

Nessas horas eu te odeio. e como te odeio. porque não esqueço de te amar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

melancolia e saudade

O "sentimento" da melancolia parece inscrever-se numa constelação de afecções da alma que vão da tristeza à angústia, sem esquecer o tédio. Na medida em que pertence à esfera do "psicológico", há interferências entre esses três "estados da alma", em especial entre a tristeza e o tédio. A angústia, essa, é mais nítida. Menos indistinta, leva o ser à beira da própria negação. Mais não é, aliás, que a vida subtraída ao futuro, asfixiada por um presente sem dimensões. [...] De certa maneira, o anustiado tem excesso de vida e de impaciência; não compactua com o futuro nem projeta nele as cores da sua angústia. Ao contrário da melancolia, a angústia não comporta o "jogo" com o tempo - tudo é urgência, a própria memória fica como que em suspenso. O campo próprio da angústia é o da imaginação, imaginação do pior, em que o real fica de fora. O tédio, pelo contrário, remete-nos para o real, para o tempo, mas não para o jogo do tempo[...]. A realidade está a mais, e nós também. nâo precisamos pedir ao Tempo que suspenda seu vôo, como no poema em que a Melancolia romântica se encenou. Está já suspenso, ou melhor, roda invariavelmente em torno de si mesmo...

[Eduardo Lourenço - Mitologia da Saudade]

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Eu sou dona do meu nariz

Parece óbvio, mas só hoje eu me dei conta disso.
Sou dona dele, mando e desmando, viro pra onde quiser.

Torço, quebro, arranho, dou com a cara na parede ou no chão:
o nariz é meu e se eu quiser, eu arrebento mesmo.

Não tenho que dar explicações a ninguém, e isso muito me agrada.

Eu sou dona do meu nariz e quero cuidar dele sozinha.


Sozinha, ouviu?

domingo, 8 de agosto de 2010

Palavras de amor ao léu

entre os que desdenham e os que juram amor demais, eu fico com um bom samba, cachaça e saudade.

eu só queria saber direitinho por onde andarão nossos caminhos.

ou queria saber fazer joguinhos. queria não ligar. queria entender vossas cabeças.

sim, tem horas que eu queria ser homem, bêbado e sambista. maldita sociedade falocêntrica.

é que, por mais inocente que seja, ainda há alguma poesia na bebedeira dos velhos poetas.

mas tudo isso não passa de paranóia feminina, você dirá. dirão todos. direi eu, inclusive.

o que ninguém sabe, desconfio, é que bastariam poucas coisas para essa paranóia passar.

maldita tpm.

Eu te darei o céu, meu bem

"Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também".

Aquela era a canção deles, e nenhum dos dois entendia o porquê. 

Não foi assim que tudo começara. A bem da verdade, sequer sabiam como havia começado. Ainda hoje não sabiam se havia começado, se havia mesmo acontecido. Ela, ao menos, não sabia precisar. Mas lembrava-se de, em algum momento achar que aquilo não passaria de mais uma piada noturna em que esperava-se que ela dissesse a ele, 

"Te farei supor, vaidoso, que és o maior e que me possuis".

Ao passo que ele, falsamente, prometeria-lhe, 

"Abra os braços pra me guardar, que eu todo vou me entregar: Começo, meio e fim".

E, a despeito dessas promessas, eles bem sabiam como continuaria aquele verso, com a chegada do dia:

"Já não vales nada: és página virada, descartada do meu folhetim".

Então seria esse o pacto. estava selado, juramentado. Da mesma forma que os contratos no papel que eles expadiam durante o dia, daquela forma se firmavam os acordos da noite. O deles não teria por que ser diferente.

Mas foi.

Ele não soube explicar se foi porque nela os cabelos exalavam um cheiro exótico, ou se foram as pernas, que lhe prenderam num abraço mortal da jiboia durante o sono, do qual ele não quis se libertar.

Ela não sabia dizer se foi porque adormecera com a cabeça em seu peito, falando amenidades que não lembraria no dia seguinte, ou se fora o carinho inesperado recebido enquanto dormia.

Ambos desconheciam o motivo, que era muito mais simples do que aparentava: nos braços um do outro eles adormeceram, como não faziam com ninguém desde há muito, sem a pressa de fugir de si, sem a necessidade de explicar-se, sem a obrigação de ser alguém. 

Sabiam que não poderiam continuar, que o pacto deveria ser cumprido, pelo bem da esposa dele, do marido dela, do trabalho na firma, do emprego em que ela, secretária do colega, não dirigia a palavra a ele, exceto em raras ocasiões. Sabiam que aquela noite seria única. E ela sabia que teria que dizer o que lhe ia pela cabeça ali, naquele universo que não pertencia a ninguém, antes que ele se esvaísse com o tempo.

E foi assim que, sofrendo com a inesperada dor que os alcançara, as últimas palavras dela, logo antes de saírem daquele quarto de hotel pardieiro, ficariam gravadas na memória, nas paredes sujas, nos móveis, nos lençóis encardidos:

"Esse amor me derreteu. Ajoelha-te e esquece: me chupa e agradece a quem te machuca. Agradece, meu Deus".




terça-feira, 13 de julho de 2010

Por um pouco de educação

Coisa que me irrita nessa vida é gente mal educada. Não estou falando daquela gente que cospe na rua, joga papel no chão - esses eu tenho raiva, nojo mesmo. Tampouco estou falando de gente que fala palavrão: faço parte deste grupo e aderi ao "direito ao foda-se" faz tempo. Palavrão é só uma palavra que as avós e os pais de alunos não gostam de te ouvir falar, nem o seu chefe, mas fora disso, por mim, tá liberado, porra.

Estou falando, quando me refiro aos mal educados, daquela gente que não aprendeu com a mãe e o pai que existem três expressões mágicas: são elas "por favor", "com licença" e "obrigado(a)". Tem gente que simplesmente te pede uma coisa, sem se dar ao trabalho de cogitar sua disponibilidade para isso. Como é que se sabe que o cidadão não pensou em você, no seu tempo, na sua vontade, etc.? Pelo simples fato dele não dizer "será que você podia, por favor, fazer tal coisa?". Se ele não parou pra te dizer um por favor, alguém ainda credita que ele parou pra pensar se você tem tempo ou vontade pra fazer o que ele quer que você faça? Duvido muito. E se tiver pensando, é pior ainda, pois pensou e não se importou com isso, a necessidade dele é mair urgente que o seu saco. 


E, no caso de eu ter errado, do cidadão ter cogitado, ter se importado e ainda assim não ter dito, é por mera comodidade e economia de tempo (dele). Vai doer, se ele disser as palavras mágicas? Não, não vai. Mas o infeliz acha que tá implícito, que não precisa, que não se usa isso mais, entre os iguais. Ainda mais se você é do tipo que, como eu, fala palavrão a torto e a direito. Cheguei a conclusão que isso passa a idéia, pras pessoas, de que você não está nem aí pra etiqueta social. Mas olha, eu to. Eu sou do tipo que pede licença até pra cachorro de rua, agradeço a formiga que saiu do meu bolo, e peço por favor pra chuva parar de me molhar. Tá eu sei que eu sou um exagero da natureza, mas, sério, custa mesmo demais pedir por favor e agradecer depois?

Eu ainda acho que essa minha mania de me importar com os outros vai me foder na vida, mas eu não desisto. Só deveria deixar de me importar. Mas não consigo.

Deixo aqui o meu manifesto solitário por um pouco mais de educação no mundo. Por favor. E obrigada.

sábado, 24 de abril de 2010

Amanhã eu escreverei...

e direi tudo aquilo que me atravessa a garganta, numa traqueostomia indesejável.
Amanhã eu escreverei, e todas aquelas palavras ruins e dolorosas serão atiradas, viajando a mais de 180 quilômetros por hora, em direção a tua cabeça, teus olhos e teu peito (nu).
Amanhã eu escreverei, e tu serás mortalmente ferido, ainda que não percebas na hora, sangrando lentamente, em morte silenciosa.
Amanhã eu escreverei, e será o início do (teu) fim.

Amanhã, quando eu escrever, chorarei o choro amargo e contido das viúvas, dignas de respeito, vendo definhar um coração outrora tão vermelho, vivo e pulsante, hoje pálido, apático e enrijecido pela dor.

Enquanto espero pelo dia de amanhã - quando eu escreverei tua sentença - em algum lugar, (talvez lá fora, na rua, ou dentro de minha cabeça - já não importa mais) um acoredon sopra uma canção melancólica. E já não consigo mais chorar por te ver partir, embora estas lágrimas estúpidas insistam em rolar por minha face e teimem em molhar meu colo.

Amanhã... Eu te mato.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De volta a Ervilhópolis...

eu mal pisei aqui e já percebi quatro coisas:

primeiro, como eu senti falta das minhas pessoas queridas.

segundo, essa cidade é mesmo uma ervilha, e em todo lugar que você vai existe 100% de chance de encontrar um conhecido: sim, você VAI encontrar alguém que você conhece, queira você ou não, então, num ande pagando migo ou mal-arrumada por aí, as pessoas vão notar.

terceiro: as pessoas continuam ocupadas demais comentando da sua vida pra cuidar da delas. Sim, porque é muito mais lógico que cuidem da vida allheia do que das próprias vidas. Num parece óbvio que alguém lá longe, (segundo me disseram, "lá em los angeles") vai ficar cuidando da vida de uma menina x y ou z e mandando recados ameaçadores no orkut dela, porque ela ficou com o ex dessa pessoa? Eu acho que faz super sentido... NOT! Credo, tenham mais o que fazer! a gente vai embora, EMBORA, e, quando volta, descobre que pessoas que vc nunca viu na vida ficam inventando coisas assim, a seu respeito. Dói, tá? Enche o saco, tá? Eu num sei nada e num quero saber nada, vida de ex não me diz respeito, e eu sigo a seguinte premissa: Da minha vida cuido eu, e da vida dos outros eu num quero nem saber!

quarto, e essa falarei mais detalhadamente em outra oportunidade, Santa Catarina é um estado carente. Existem muitas bandas boas aqui, mas, por se encontrar quase fora do circuito nacional, e fora do internacional, todo mundo vai à shows de covers e tributos. Uma sede sem tamanho! fui hoje no tributo a Queen (que foi bem divertido, por sinal) e vi gente gravando e batendo fotos, como se fosse o próprio Freddie Mercury renascido ali no palco da UFSC. juro, nessa hora eu ri. Antes que eu seja bombardeada com a revolta de alguém que possa se ofender com meu comentário, já digo que, apesar disso, e de ter algumas críticas ao show (em algumas músicas a afinação dos backings vocais deixou a desejar), achei muito bom, gostei mesmo e achei a iniciativa bem válida. 

Enfim, a vida ainda tá se ajeitando por aqui. Nao ando muito empolgada, podem notar. Mas acho que é muita coisa em suspenso e meu aniversário chegando. Vai ver é o inferno astral.

terça-feira, 16 de março de 2010

Madrugada

Já não consigo dormir sem ter teu corpo ao meu lado;

Você me diz bobagens, sussurra indecências ao meu ouvido, reclama do tempo que não passa e me fala de urgência.
Concordo, impotente, e por sobre os continentes e linhas, entre os oceanos, paralelos e meridianos, chegamos à beira do abismo. A urgência se faz imediata, emergência, instantânea. Sussurros, gemidos, corpos indistintos. Nós dois a nos perdermos em nossos próprios corpos.
E dez, ou vinte, ou quarenta ou sessenta minutos depois, quando é hora de morrer, a tua voz tranquila me dá boa noite, do outro lado do mundo.

Mas o caso é que eu já não consigo dormir sem te ter ao meu lado.

terça-feira, 9 de março de 2010

Leis

É, talvez eu seja uma garota que se perdeu em meio a tantas coisas que havia para serem vistas.
Ou talvez eu seja uma mulher que se encontrou em meio a tantas coisas que estavam perdidas.
Talvez ainda haja muito para ver, muito para se perder, muito para se encontrar.
Talvez eu me encontre, talvez me perca. Talvez te encontrarei um dia, talvez esse dia nunca chegue.
Talvez eu acorde e perceberei que estou ao teu lado, ou então, talvez eu durma e aí sim esteja contigo.
Talvez as coisas nunca tenham sido feitas para serem achadas, talvez elas nunca se percam de fato.
Talvez seja tudo um sonho, ou talvez sonhemos com a realidade...

Tanto paralelismo, tanta relatividade... Einstein, Murphy, Newton... Tantas leis, tanta ordem... Mas... talvez... talvez, quem sabe?

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ontem fui à papelaria

Ontem fui à papelaria. Comprei um caderno novo, com folhas em branco, pautadas.
Comprei canetas coloridas, de todas as cores. Pontas finas, 0,3mm, porosas. Multicolorido, um arco-íris em dez tons. Sentei-me em casa, observei as ferramentas. Tudo pronto pra recomeçar.
Depois do nome e telefone, escrevi no meu caderno a seguinte conclusão: 

Uma vida nova, verdinha, crescendo. 
Um novo começo, mil possibilidades
Novos-velhos sonhos
Uma idéia na cabeça,
A caneta nas mãos
e um telefone que não toca.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

transeunte

Acabo de chegar de San Francisco; Muito a dizer, milhares de sensações, me fogem as palavras. 48h de coisas re-vistas, novas vistas, novos cheiros, velhas imagens... jogo aqui apenas as coisas que me ocorrem agora, como um registro embaralhado das boas lembranças que ficam desses dois dias. as fotos virão depois.

Um exemplar da biografia do Ozzy autografado; um exemplar em inglês do "On the road", comprado na City Lights, livraria beatnik; chocolates, cartões postais, pérolas, Chás, SFMOMA, boas lembranças, boas companhias, bons cheiros, boa comida, muitas fotos, muita caminhada, milhares de risadas, cansaço gigantesco, 1600 quilômetros rodados, bondes, trens, carros, chuva, sol, música, massa com molho ragu, frio, lemonade, câimbras, sono, starbucks, walgreens, mapas, rotas, ruas, perder-se, achar-se, igreja, Alcatraz, ferri, mercado, ponte, pedágio, gasolina, ravioli de nozes, hambúrguer, vinho, água...

Quando for a San Francisco, não esqueça de usar flores nos cabelos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Choose life...

(novembro de 2009)

a vida que eu escolhi não tem luxos: não tem riquezas, hotéis cinco estrelas, viagens pelo mundo. a vida que eu escolhi não tem glamour.
a vida que eu escolhi é construída a cada dia: pensando que, no fim do mês, pode ser que não dê pra comprar aquela blusa nova, já que abusei no meio do caminho.
a vida que eu escolhi é simples, mas tem seus momentos de glória. Aliás, tem muitos desses momentos. momentos singelos, como um café da manhã na cama, um beijo de boa noite, ou um carinho nos cabelos, pra fazer dormir.

a vida que eu escolhi tem o conforto de um abraço, um beijo, uma calçada ensolarada, num jardim de um museu. e a beleza do por do sol que se seguiu.
a vida que eu escolhi tem a singeleza de um gesto, uma pequena orquídea amarela, numa noite chuva, vento e frio. e terá o calor de um cálice de vinho, e um filme não acabado.
a vida que eu escolhi tem a alegria de ganhar uma canção, que não tocará nas rádios do mundo, mas que foi feita só pra mim, enquanto eu dormia calmamente no sofá. ou no quarto. ou na casa da minha mãe.

a vida que eu escolhi tem umas coisas inexplicáveis, como passar a tarde sentada num banco de loja, falando bobagens, e me sentir plena. ou atravessar a cidade apenas pra almoçar junto.

a vida que eu escolhi me inunda de felicidade, quando ouço uma canção que antes não fazia sentido.

a vida que eu escolhi é assustadora porque é real. porque tem problemas, dificuldades. porque tem passado, presente e futuro.

a vida que eu escolhi é feita de erros e acertos, muitos, muitos erros. e alguns acertos, bem-feitos.
ela tem a beleza dos amantes, a calma dos velhos e a energia dos infantes.
e tem jantares com amigos, planos de mudar os móveis, aventuras para instalar um armário numa cozinha oca, adotar uma gata e chamar de filha, telefonemas na madrugada, declarações de amor...
isso. a vida que eu escolhi tem, antes de tudo, amor.
e o melhor de tudo é que a vida que eu escolhi já começou. eu só espero voltar pra ela. todos os dias.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um ano versado





Ao Ev e seu blog Pactum Subjectionis,
que hoje comemora um ano

Sempre me perguntei de onde veio a palavra aniversário. É, desde criancinha tenho essas tendências estranhas, daquelas que o pai acha estranho e a mãe sempre fala "deixa a menina, ela é diferente"... Mas, voltando, sempre me perguntei: que coisa quer dizer aniversário? O prefixo é fácil: ani - ano. Agora... Versário? Nunca descobri.

Tenho cá pra mim que vem de verso. Simplesmente porque gosto de pensar que a vida é assim, cheia de poesia. Poesias bonitas, feias, degradantes, iluminadas, felizes, tristes, pictóricas... poesias, poemas, frente e versos...

Um ano de (in)versos. Parabéns, Pactum. Que venham mais anos. E versos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Butterfly fly away

No compasso de uma borboleta eu vou. Voando desastrada, sem seguir uma linha reta. Pouso em flores, dou voltas... Vôo sem saber a rota, mas com destino certo.

Todo nascimento é também um rito de morte.

O passo do bebê girafa, após nascer  - e despencar de mais de um metro de altura - é incerto, mas fundamental: levanta-te ou te devoram.

O mesmo se dá com as borboletas: é preciso voar. Secar-se rapidamente ao sol da manhã e partir. As asas, ainda úmidas, parecem não saber seu propósito, e eu, antes lagarta, ainda olho as costas e procuro entender de que forma aquelas estruturas brotaram em mim. Me acostumo com as asas recém descobertas: Não é fácil sair da crisálida. Mas, tal qual ela busca a flor mais cheirosa, eu busco a felicidade.

Mesmo que leve mil anos, mesmo voando incertamente, mesmo que alguma outra flor me engane e pareça, erroneamente, ser aquela que procuro, mesmo que eu tenha que recomeçar, eu sei que chegarei lá. Podem apostar.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Invertendo valores...

Nunca pensei que minhas aulas de literatura portuguesa V fossem ser extremamente úteis na minha vida. Em verdade que não são, mas de certa forma, foi a pseudo-leitura dos textos da disciplina que me embasaram na escrita desse texto de hoje.

Confesso: nunca pensei em mim como uma pessoa exótica. Afinal, uma mulher branca, jovem, urbana, com curso superior é exatamente igual à todas as outras mulheres jovens, brancas, urbanas e com curso superior. Igual no que tange à representação de classe, sim, mas sempre me considerei mais uma em meio à multidão. Nem muito feia, nem muito bonita. Mais pra muito magra do que pra gostosa. Nem loira, nem mulata: absolutamente padrão. Convenhamos, me encontro naquela faixa humana entre a Gisele Bundchen e o Tiririca, que passa a vida sem ser "descoberta" e sem ser escancaradamente feia. E esse nicho de normalidade sempre tendeu pra mandar a auto estima lá pro pólo sul. Mas eu sobrevivia.

Daí que um dia pirei o cabeção e me mandei, de mala e cuia, pra califórnia. Chegar aqui foi muito esquisito, no sentido sócio/cultural e étnico da coisa. Pra começar, todos os meus padrões e parâmetros foram jogados no lixo. Não, eu não sou branca. Branco, aqui, só quem se chama Smith, tem olhos azuis, cabelos loiros (naturais ou à base de H2O2) e uma ascendência anglo-saxônica (ou nórdica - não dá pra negar que aqueles galegos lá da suécia e da noruega são brancos). Sim, meus caros, nosso chamado homem branco, o português malvado que matou os índios brasileiros e escravizou os africanos, esse não é considerado branco. Na melhor das hipóteses, ele é considerado europeu, e daí é um pseudo-branco.


Também não sou considerada latina, já que ser latino significa ter cara de índio, 1,50m de altura, falar espanhol e me chamar Maria, Carmen ou Lucía. Do alto dos meus 1,70m, dessa pele morena que deus não me deu e com cabelo claro, falando um portunhol de meia-tigela, sou veementemente rejeitada pela classe "latina", restando recolher-me à insignificância do rótulo de "brasileira".

E é aí que eu chego ao ponto que iniciou essa conversa toda, aquela coisa das aulas de literatura portuguesa e tal. Nessa disciplina estudávamos a relação metrópole (portugal) colônias (africanas) e o estranhamento envolvido nela, perceptível na literatura. Era um estranhamento que habituou-se chamar de mesmo-outro, em que o papel de "mesmo" é desempenhado pelo escritor, notavelmente um colono (e, portanto, branco) e o papel de outro é desempenhado pelo mundo que ele observa, notavelmente os colonizados (e, portanto, negros). Sei que a explicação é bastante falha, mas isso é um blog, se quiser mais detalhes, vai ali no sábio da montanha e digita "relações coloniais na literatura portuguesa". Aparece um monte de coisas, entre elas o texto de Francisco Noa, que me pareceu bem pertinente.

E, desde que cheguei aqui, o que sinto, todos os dias, é que desempenho o papel de "outro". Tão acostumada que eu estava, no meu posto de "mesmo", aquele de mulher jovem, branca, urbana e universitária - papel típico do terrível colonizador, me faltando apenas um pênis para ocupar o papel com propriedade, nesse mundo falocêntrico - foi uma reviravolta. De uma hora pra outra fui jogada no extremo oposto: mulher, mestiça (afinal, todos os brasileiros são, né? Eu então, praticamente uma globeleza), de um país tropical, "em desenvolvimento", com uma língua estranha: o estágio mais completo de o que eles chamam de minoria. E junto com "minoria" vem a palavra "diferente" e daí pra "exótica" é um pulo.

E é "exótico" pra tudo: sotaque exótico, feições exóticas, estilo exótico, país exótico... Ai, confesso, tem hora que cansa. Pior mesmo é a quantidade de vezes que já me pediram pra dançar samba - logo eu, com essa ginga e brasilidade nata - e a quantidade de vezes que tive que explicar que A) "Nem toda brasileira é bunda" B) prostituição não é crime no brasil, se você tiver mais que 18 anos, mas cafetinagem é. C) isso não significa que toda brasileira seja puta. D) o "cara de braços abertos" é o cristo redentor, E) não, ele fica no Rio, não em São Paulo. F) São Paulo é maior que Nova Iorque - nem sei se é de fato, mas quando digo isso eles entendem que temos cidades muito grandes. Já ganhei até elogio porque sabia dirigir do lado certo da rua (sim, a pessoa pensou que o resto do mundo dirigia com a mão inglesa). Minha conclusão? Mesmo aqueles com as melhores intenções pecam pela ignorância. Os estadunidenses (eles ficam surpresos quando eu me recuso a chamar ao país de América e a eles de americanos), em sua maioria, não sabem nada do resto do mundo.

Essa ignorância do "mesmo" em relação ao "outro" colocou minha "sabedoria" em cheque: o quanto eu, como "mesmo" conheço do "outro"? Percebi que meu conhecimento em relação ao mundo se resume à américa portuguesa (como vocês sabem, é só o brasil), américa inglesa (entenda-se EUA) e europa ocidental. Sei vagamente da américa espanhola, porra nenhuma do canadá (exceto que tem duas línguas e muita neve, e os estadunidenses não gostam deles), levemente da áfrica e ásia, um tisco do leste europeu e nada da oceania. Caramba! Isso, pra quem é fã de curiosidades inúteis como eu, foi doloroso! Pra remediar essa situação, essa noite passei algumas horas (com auxílio do google earth, google sky e a wikipédia - que, juntos, formam praticamente o guia do mochileiro das galáxias) estudando o mundo,  a vida, o universo e tudo mais... Pensava comigo: Ainda é tempo, Flipper: até breve, e obrigado pelos peixes!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Histórias de Cronópios e de Famas

Primeira e ainda incerta aparição dos cronópios,
famas e esperanças


Fase mitológica


Costumes dos famas


Aconteceu que um fama dançava trégua e dançava catala na frente de um armazém cheio de cronópios e esperanças. As mais irritadas eram as esperanças porque elas tratam sempre de que os famas não dancem trégua nem catala e sim espera, que é a dança que os cronópios e as esperanças conhecem.

Os famas se colocam de propósito na frente dos armazéns, e desta vez o fama dançava trégua e catala só para aborrecer as esperanças. Uma das esperanças depositou no chão seu peixe de flauta — pois as esperanças, como o Rei do Mar, estão sempre assistidas por peixes de flauta — e resolveu interpelar o fama,
dizendo-lhe assim:

— Fama, não dance trégua nem catala defronte deste armazém.

O fama continuava dançando e ria.

A esperança chamou outras esperanças, e os cronópios fizeram roda para ver o que ia acontecer.

— Fama — disseram as esperanças. —Não dance trégua nem catala na frente deste armazém.

Mas o fama dançava e ria, zombando das esperanças.

Então as esperanças se jogaram em cima do fama e bateram nele. Deixaram-no caído ao lado de uma estaca, e o fama se queixava, envolvido em seu sangue e em sua tristeza.

Os cronópios chegaram furtivamente, aqueles objetos verdes e úmidos. Cercavam o fama e o lastimavam, dizendo-lhe assim:

— Cronópio cronópio cronópio.

E o fama compreendia, e sua solidão era menos amarga.

(CORTÁZAR, Julio. Histórias de Cronópios e de Famas)