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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Do amor e outros jogos de azar

Este é um texto de fevereiro de 2010. só pra constar. o de 2011 virá logo.

Do amor e outros jogos de azar:

Jogos de azar são coisas que você entra já sabendo que vai perder. Mesmo assim arrisca, achando que, de alguma forma, não vai acontecer com você. Uma idiotice juvenil, coisa de adolescente, aquilo de "não, comigo vai ser diferente"... Deixa eu te contar uma coisa: Não, não vai ser diferente.

Vegas não existiria se a realidade não fosse uma única: a casa sempre ganha. E, tido isso como fato, há somente um outro lado da corda: se eles sempre ganham, você sempre perde.

O amor é um jogo. Já me contaram que existem dois tipos de jogos possíveis: o amor-frescobol e o amor-tênis. no primeiro, os parceiros jogam juntos, tentando fazer com que a a bola fique sem cair por mais tempo, e com isso os dois ganham. No segundo, um jogador só vence se o outro perder, então cada um joga pra si.

Honestamente, não sei o quanto acredito na existência do tal do frescobol. O amor é um jogo daquele tipo em que você aposta no preto 13, sabendo que vai dar qualquer outro número e cor na roleta, mas a excitação de pensar que o preto 13 pode vir a cair te faz jogar de novo e de novo, mesmo diante das infinitas derrotas. Volta e meia cai na sua escolha, e você acha que sua sorte vai mudar. Mas dura só um pouquinho, logo em seguida ela pula pra outra casa, outra cor, outra roleta...

É, estou desiludida. Eu criei uma cidade brilhante, iluminada, rica, com infinitas possilidades... terminei apostando num cassino qualquer, sem certeza de que o meu número 13 vai ser escolhido, com você ao meu lado me dizendo que foi uma escolha errada, da mesma forma que o foram todas as escolhas erradas que eu já fiz. Escondendo teus erros e falhas atrás dos meus. Desconsiderando que foi você quem me mandou escolher entre o 13 e o 31, esfregando em meu vestido puído a quantidade de vezes que não te ajudei na hora de apostar. Esquecendo-se que eu havia perdido tudo, e mesmo assim juntei os trocados que me restavam pra jogar numa aposta improvável, 200 pra 1. Achei que ganharia, você me disse que ganharíamos, ganhamos... ganhamos?

Estamos ambos jogando as moedas que sobraram, em cassinos distintos, destilando para a mesa os rancores que temos um do outro.

O amor é um jogo de azar. E a casa sempre ganha. Perdemos nós.

domingo, 8 de agosto de 2010

Palavras de amor ao léu

entre os que desdenham e os que juram amor demais, eu fico com um bom samba, cachaça e saudade.

eu só queria saber direitinho por onde andarão nossos caminhos.

ou queria saber fazer joguinhos. queria não ligar. queria entender vossas cabeças.

sim, tem horas que eu queria ser homem, bêbado e sambista. maldita sociedade falocêntrica.

é que, por mais inocente que seja, ainda há alguma poesia na bebedeira dos velhos poetas.

mas tudo isso não passa de paranóia feminina, você dirá. dirão todos. direi eu, inclusive.

o que ninguém sabe, desconfio, é que bastariam poucas coisas para essa paranóia passar.

maldita tpm.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Receita para curar soluço

Aperte o dedo médio da mão direita, na altura da primeira junta (entre a primeira e a segunda falange).

Em seguida, tome água; três goles, na posição normal. Depois tente tomar os mesmos gole de ponta cabeça.

Após isso, tome um susto, daqueles de morrer três vezes.

Volte para o copo d'água: um copo inteiro, sem respirar.

Agora dê três voltas em um pé só.

Se nada disso adiantar, olhe para o homem que te faz sofrer e mande-o à puta que o pariu.

Sucesso garantido.


(para o Ev, que sofreu uma crise de soluços, de causa aparentemente desconhecida)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Por um pouco de educação

Coisa que me irrita nessa vida é gente mal educada. Não estou falando daquela gente que cospe na rua, joga papel no chão - esses eu tenho raiva, nojo mesmo. Tampouco estou falando de gente que fala palavrão: faço parte deste grupo e aderi ao "direito ao foda-se" faz tempo. Palavrão é só uma palavra que as avós e os pais de alunos não gostam de te ouvir falar, nem o seu chefe, mas fora disso, por mim, tá liberado, porra.

Estou falando, quando me refiro aos mal educados, daquela gente que não aprendeu com a mãe e o pai que existem três expressões mágicas: são elas "por favor", "com licença" e "obrigado(a)". Tem gente que simplesmente te pede uma coisa, sem se dar ao trabalho de cogitar sua disponibilidade para isso. Como é que se sabe que o cidadão não pensou em você, no seu tempo, na sua vontade, etc.? Pelo simples fato dele não dizer "será que você podia, por favor, fazer tal coisa?". Se ele não parou pra te dizer um por favor, alguém ainda credita que ele parou pra pensar se você tem tempo ou vontade pra fazer o que ele quer que você faça? Duvido muito. E se tiver pensando, é pior ainda, pois pensou e não se importou com isso, a necessidade dele é mair urgente que o seu saco. 


E, no caso de eu ter errado, do cidadão ter cogitado, ter se importado e ainda assim não ter dito, é por mera comodidade e economia de tempo (dele). Vai doer, se ele disser as palavras mágicas? Não, não vai. Mas o infeliz acha que tá implícito, que não precisa, que não se usa isso mais, entre os iguais. Ainda mais se você é do tipo que, como eu, fala palavrão a torto e a direito. Cheguei a conclusão que isso passa a idéia, pras pessoas, de que você não está nem aí pra etiqueta social. Mas olha, eu to. Eu sou do tipo que pede licença até pra cachorro de rua, agradeço a formiga que saiu do meu bolo, e peço por favor pra chuva parar de me molhar. Tá eu sei que eu sou um exagero da natureza, mas, sério, custa mesmo demais pedir por favor e agradecer depois?

Eu ainda acho que essa minha mania de me importar com os outros vai me foder na vida, mas eu não desisto. Só deveria deixar de me importar. Mas não consigo.

Deixo aqui o meu manifesto solitário por um pouco mais de educação no mundo. Por favor. E obrigada.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Citando...

"Eu assumo compromisso com o meu coração partido de corpo e alma. É algo de que eu nunca vou abrir mão. Mas esse coração partido, de certa maneira, é a minha característica. É uma representação do processo do meu trabalho.Na posição de artistas, vivemos eternamente com o coração partido."

Bonito isso, né?




 Foi a Lady Gaga quem disse. Mas eu gostei.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Dear astral hell...

















Suma daqui!
Estou esperando pelo paraíso astral.

com amor,

Moi

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

É pedir demais?

É pedir demais ser feliz na vida? Deveria ser mais fácil do que ser rico, mas às vezes me parece tão impossível quanto. É pedir demais ficar ao lado da pessoa que escolhemos, viver todos os dias em paz, sem muitos luxos, mas tranquilamente? É pedir demais, um pouco de confiança? é pedir demais?



é. pedi demais.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Do desamor

(Segundo Favia C.)

Ia escrever aqui, mas ela escreveu tão bonito, que disse tudo que eu queria dizer. Copio, então, na íntegra, o texto dela, disponível aqui.

Do desamor

Vinte e nove anos eu tenho, e há vinte e nove anos que me falam exaustivamente de amor. Amor, amor, amor - sempre ele. Amor de pai e mãe, de avô e avó, de primo, coleguinha, namorado, amigo. Amor de todo jeito, até dos (e pelos) bichinhos de estimação. A palavra amor parece ser a que deve reger a roda da vida, o sucesso profissional e pessoal, os humores, o morar, dormir, acordar, parir e viver. É uma overdose de amor, um coma alcoólico de amor.

Irônico nisso é que, bem sabemos (e desculpe se queimarei os castelos de algum desavisado), o amor tal como o conhecemos é mais uma bela invenção humana, construída, aperfeiçoada e adornada ao longo de séculos e séculos, principalmente no sentido estrito do amor romântico - esse sem-vergonha. Vivemos um sentimento que, a bem da verdade, ninguém sabe muito bem o que é. Afeto, carinho, paixão, compaixão... Tudo isso, ao fim e ao cabo, não é amor, em diferentes gradações e espécies? E não é essa diversidade de formas de apresentação que traz o “não-sei-quê que faz a confusão”?

Não que o amor seja uma criação perversa ou algo ruim: imagine! Se não fosse esse sentimento tão nobre e humano, teríamos feito muito pouco neste planetinha que nos foi legado. Agora, se há um sentimento outro, sobre o qual nunca ouço falar, embora o veja espalhado pelo mundo, é o desamor.

Ah, o desamor: palavra que traz uma carga imensa de lágrimas e ranho. Quando ela me vem à cabeça, a imagem que faço é daquela bolerosa mulher dos anos 50, vestida em tafetá de seda azul-rei, sozinha, sentada à bancada de um bar na elegantíssima Copacabana de antanho. Enquanto Dolores Duran canta lá no palco um samba-canção cheio desamor, aquela mulher, amargando uma tremenda dor de cotovelo, acende o vigésimo Gaulloises e pede ao barman mais uma dose de whisky - cowboy. Dolores, doce e cruel, entoa:

Toda amargura
Que há no céu
Que há na terra e no mar
Nasceu talvez da tristeza que tens no olhar
No céu há um sol a brilhar
Que beija a terra e o mar
Só tu continuas assim
Dia e noite, a chorar


Mas e o dia seguinte daquela noite etílica e fumarenta?

Primeira hipótese.

Ele não vai voltar; a despeito das crianças, do apartamento na Bolívar e das festas na pérgula do Copa, o desquite é inevitável. Ele foi seu primeiro namorado, o homem a quem seu pai a entregou, com pompa e circunstância, no altar do Mosteiro de São Bento. Ele era seu único e verdadeiro amor, e agora ela o via escapar por entre os dedos e cair nas mãos duma corista do Night and Day. Pois é: além de ganhar a medonha pecha de desquitada, ainda teria de suportar perder seu homem, de fato e direito, pra uma Certinha do Lalau. Como viver com isso?

Por uma ironia cruel
Alguém começou a cantar
O samba canção de Noel
Que viu nosso amor começar
Só falta agora
A porta se abrir
E ele ao lado de outra chegar
E por mim passar
Sem me olhar


E já era manhã quando, levando os scarpins na mão, deixou seus pés tocarem na areia úmida do Posto 4. Debruçado num janelão que se abria pro atlântico sul, o poeta (havia muitos, de verdade, naquele tempo) via aquela mulher que, lenta e firmemente, entrava no mar, submergindo sem susto, como se encharcar os pulmões de água até fenecer fosse a única coisa sábia a fazer.

Segunda hipótese.

Ele não vai mesmo voltar, e essa certeza dói demais. Ela ama aquele homem de tal forma, e há tanto tempo, que nem sequer se lembra de como era viver sem amá-lo. E será que é possível desamar? Há de ser: é isso ou a morte. Morrer duas vezes é pensar nos meninos criados por uma madrasta vedete de teatro de revista. Morrer três vezes é saber que mal completou 30 anos, que tem bons pulmões (apesar do cigarro), que é linda e cobiçada e que dará cabo da própria vida se não aprender o que é desamor.

Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi
Que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol


Dobrando a esquina da Duvivier com a praia, ela viu a bruma morna sobre o mar amanhecido. Faria um dia quente, pensou. Caminhando pelo rasinho, molhando a barra do vestido, sorrindo e passando os dedos pelos loiros e anelados cabelos, chegou até seu apartamento. Hoje, levaria os filhos pra um mergulho. Depois, passaria na modista. Durante o almoço, planejaria o divórcio em Montevideo. E, antes de voltar pro jantar, compraria o disco daquele baiano moderno de que andavam falando. Já não fazia sentido algum ouvir samba-canção, se queria mesmo era viver em compasso de bossa nova.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

trilha sonora para enfossar.

Em momentos de crise, curto uma fossa fudida. Mas fossa que é fossa precisa da trilha sonora perfeita, aquelas canções que te fazem chorar mais que a Bridget Jones - Não sei porquê, mas eu tenho na lembrança a imagem dela chorando horrores, com umas 20 caixas de lenço de papel - de deixar seu mundo desabar, se sentir o pior dos mortais.

minha última lista é até eclética:

- Love is a losing game - Amy Winehouse
- Everybody Hurts - R.E.M
- Mais vinho pra mim - Samambaia Sound Club
- Space Oddity - David Bowie
- Conversa de botas batidas - Los Hermanos (na verdade basicamente qualquer uma deles, pode me deixar muito feliz ou muito triste)
- I want you - Bob Dylan
- é você que tem - Mallu Magalhães (é, até ela)
- Bridge over a troulbe water - Aretha Franklin
- kiling me softly with this song - Aretha Franklin
- Honestly - zwan

não são muitas as músicas dessa lista de hoje, mas é que eu tenho o dom de ouvir a mesma por horas a fio.

que mais? deve ter umas vinte milhões mais. milhares do Chico, mas dessa vez não rolou. quem sabe na próxima?


em tempo: o blog Trilha Para tem um monte de músicas bacanas, pra cada momento da vida. Não achei pra fossa, mas num procurei muito também.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Receita para comer o homem amado


Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.


publicado no livro Falo de Mulher


(ARRUDA LEITE, Ivana. Receita para comer o homem amado. Blog de Ivana Arruda Leite. Disponível em < http://doidivana.wordpress.com>. Acesso em: 8 de janeiro de 2010.)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Apenas mais uma história

Perdoem a minha indecência, mas hoje resolvi posar nua. Despi-me de todos os pudores, fiz uma bela maquiagem e postei-me diante da câmera. Vestia uma camisa masculina e saltos altos. Altíssimos aliás. O fotógrafo me olhou de esquiva e disse, Tira tudo.

Ainda em choque pela ordem tão fria, desinteressada até, desci do salto e desabotoei a camisa, desconcertada. Feito isso, enquanto procurava cobrir-me com meus próprios braços, buscando salvar o pouco de decência que me sobrava, fiquei surpresa quando ele me olhou de novo e, surpreso, revelou, Não, eu me referia à maquiagem, pode por suas roupas de volta.

Humilhada, perdida, corava até as orelhas, enquanto juntava meus pequenos trapos e olhava para o chão. O fotógrafo, percebendo meu incômodo, procurou me confortar, Nada é mais nu do que uma mulher mostrar sua verdadeira face, sem truques e tintas; Talvez não seja tão bonito, retruquei ainda incrédula com o que ouvira, Mas com certeza é o mais honesto, ouvi.

O diálogo e a cena acima nunca aconteceram. O que acontecerá aqui, hoje, é ainda um outro tipo de nudez. Se chegaram até aqui esperando ver fotografia com uma mulher pelada, perderam seu tempo. Hoje, desnudo minh'alma.

Dizia um poema - ou um verso, ou um livro de Drummond, já não me lembro mais - que "amar se aprende amando". Pois eu aprendi algo um pouco diferente, nessa minha curta vida: amar se aprende sendo amado.
Amar se aprende perdendo o amor, amar se aprende vendo e sim, amar se aprende amando.

É possível, também, desaprender a amar. É possível aprender a se fechar em copas, por medo de se ferir. É possível magoar o outro, aquele que mais te ama, por medo.

Eu passei por todas essas coisas. tive medo. medo de amar de novo. medo de dar meu coração a alguém, por achar que ninguém merecia tamanho ato de amor. Magoei, fui inconsequente. Eu quase perdi tudo aquilo pelo qual vi outras pessoas lutarem, chorarem e se deseperarem, impotentes. Eu abri mão de tudo, de bom grado.

Mas um dia, eu acordei. Percebi que minha proteção me tinha deixado sozinha. Protegida, sim, mas solitária. Indiferente. Oca. Na minha linda torre de marfim. Pensei, pensei e decidi: Eu quero minha vida de volta.

Com isso, meus caros, não tenho medo de afirmar: minha vida só será completa quando ele estiver ao meu lado. E por isso, eu estou voltando. Com um sorriso nos meus lábios impacientes. E todo amor do mundo, aquele que eu só aprendi a viver depois de ser amada, depois joga-lo fora, depois de vê-lo e, finalmente, depois de amar.

Me espera, meu bem, que eu to chegando.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Para um pouco de paz

Ele falou-me, outro dia, das dores do coração. Me contou o quanto sofria, dos tantos nãos recebidos.
Ela me disse, em separado, que não queria viver assim, não havia razão; disse que o amor só lhe feria e das tantas vezes que disse não.

Enquanto os ouvia, chorando em mesas distintas de bares distantes, eu pensava no tempo em que os conhecera, e sabia que não voltaria mais. Pensava que alguma vez, não muito tempo atrás, aquelas pessoas tinham sido um Dois; era sempre assim, o Ele vinha com Ela, e Ela não cabia sem Ele. Hoje não mais, agora eram dois Um, Ela que não pensa mais n'Ele (mentia, sim, ela nisso mentia), Ele que não precisa mais d'Ela (e ainda pensava que enganava alguém com isso).

Os olhos vermelhos, baixos, esquivos, fugiam de mim para que eu não pudesse ver o que dentro deles havia. Como se para isso alguém precisasse de fato olhar dentro de algum daqueles olhos: ela estava nua, ali em frente, em meio a todos. Ele era mais transparente e límpido do que o velho e sujo copo de cerveja que tínhamos à nossa frente.

Era claro que se amavam. Era claro que tinham medo. Era claro que se tinham perdido, numa das voltas do caminho, e os pássaros haviam comido a leve trilha de pão que maria havia deixado, e joão estava seguindo.
Ele dizia que ela não o ouvia, ela teimava que ele é que não queria escutar.


Eu sorria, sabendo antever nela a fala dele, e nele o discurso dela. Já não esperavam mais nada um do outro, e foi aí que lhes disse que o erro era este: deviam, pois, justamente esperar tudo, sabendo que seriam frustrados, mas, ainda sim, esperar tudo. E deviam então perdoar antecipadamente a falha do outro, pois já sabiam-se humanos, e falíveis como tais. Deveriam esperar e perdoar, mas sim, tinham que se reservar o direito de sofrer e se magoar, a cada tombo levado. Dizia-lhes isso, repetia a ela o que dissera a ele, e a ele o que argumentara com ela, torcendo para que seus corações encontrassem descanso, na morada que fosse.


E então partiram: Deixei-o a caminhar bêbado, tropeçando em seus pensamentos; Ela caía, absorta em suas profundas dores. Aquela noite dormiriam, profundamente e sem sonhos, um nos braços do outro, ainda que em camas diferentes. Naquela noite, sim, haveriam de se dar, ainda que só um tantinho, um pouco de paz.

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Nota importante: Este texto é ficcional. Escrevi essas palavras pensando nas dores e crises que ouço e vivo diariamente, mas nenhum fato concreto me levou a escrevê-lo. Ouvi de alguém que só tenho amigo fudido, então digamos que escrevi esse texto pensando em todos eles e em ninguém em particular. Por favor, não leiam nas entrelinhas. É só um texto e nada mais.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O mundo diante da TPM

Talvez seja estranho começar o ano com um texto sobre tpm, mas a verdade é que a mãe natureza não me deu muita alternativa. Nem bem 2010 chegou, lá vem ela, a cruel algoz dos relacionamentos. Três letras, sete fonemas; Tê-pê-eme. Nenhuma outra síndrome afeta tantas pessoas, famílias e lares mundo afora e com tamanha recorrência quanto a maldita tensão pré menstrual.

Se pararmos pra pensar, os números são assustadores: 49,75% da população mundial é do sexo feminino, ou seja, o mundo comporta hoje algo em torno de 3.428.196.000 mulheres. Dessas, mais de 75% dizem sofrer algum sintoma relacionado à chegada da menstruação, o que dá  mais ou menos dois bilhões e seiscentos milhões de criaturas. É muita gente! É como se a  China e a Índia inteiras acordassem de mau humor. E se dividirmos esse número de mulheres pelo número de dias do ano, o negócio fica desumano: são 7043836 mulheres com tpm a cada dia, ou seja, a população total de Hong Kong. Claro, há que se desconsiderar a porcentagem de mulheres que não se encontra em idade fértil, mas a idéia em si já é bastante assustadora, ainda mais se pensaramos que, junto com elas sofrem outros tantos milhões de homens, os maridos, pais irmãos e namorados dessas mulheres.

Desconfio que a tpm seja o maior motivo de discórdia no mundo; Ouso supor que milhares das guerras já  vistas no decorrer da história foram causadas, em algum ponto, por conta da tpm; A rainha estava rosnando pra sombra, deu uma resposta atravessada pro rei, na frente dos vassalos, e ele, com seu orgulho e hombridade feridos, resolveu descontar no pobre emissário do reino vizinho, que levava um aviso de aumento nos impostos de importação. Pronto! Lá se iam umas tantas vidas desperdiçadas.

Os homens não conseguem entender esse período meio viúva negra, pelo qual as mulheres passam todos os meses (excetuando-se alguns poucos, que afirmam também sofrer desse mal - mas disso tenho lá minhas dúvidas). E é até engraçado quando, após uma briga por um motivo (aparentemente) estúpido, elas se descabelam e debulham em lágrimas, e então eles se dão conta do que está acontecendo: "mas é tpm, outra vez?!?!?!?"

Sei que já foram muitas as tentativas de explicar didaticamente para vocês, sortudos homens, o que é esse período negro. E sei também que vocês até tentam, mas no fundo não entendem é nada. Mas vamos lá, mais uma vez, alguns parâmetros desse universo (majoritariamente) feminino.

Imagine que você tem um útero - tá, esquece, vocês não sabem o que é ter um útero, pulemos essa parte.
Então imagine o seguinte: você está lá, levando sua vidinha normalmente. Daí, um belo dia, sua barriga começa a inchar, não muito, mas você nota. só a parte de baixo, aquela que fica no cós da calça. desagradável, mas fazer o quê? Depois são os seios: incham, ficam doloridos; tem vezes que até o contato da camiseta roçando na pele é de matar, imagina aquela mãozona cheia de dedos do marido/namorado/ficante/amante/homem que te ajuda. A gente reclama, vocês não entendem.

Depois, ainda tem a pele, aquela que você lava com sabonete especial, passa hidratante sem óleo, filtro solar, maquiagem etc e tal, enfim, aquela pele que você dedica tanto esforço pra manter saudável começa a ficar um lixo! Num desses dias você acorda com aquela megaespinha, que mais parece um alien plantado bem no meio da testa.  O cabelo fica um nojo, e você começa a se achar a esposa do Tiririca.

Não bastasse tudo isso, o humor, que vocês insistem em reclamar, fica absolutamente incontrolável. Ou alguém ainda acha que a gente faz de propósito, porque ADORA dar bafão em público, como ser dispensada de uma reunião pelo chefe, após ouvir dele que você não deveria ter se atrasado naquele dia, porque ele não aguenta olhar pra sua cara vermelha e molhada de lágrimas? (sim, eu já passei por isso, mas a minha sorte é que a minha chefe era muito gente fina e, sendo mulher, entendeu bem o que eu estava passando) Ou, ainda, que nos DELEITAMOS com ouvir de vocês que "hoje você está insuportável", frase invariavelmente seguida da famosa "todo mês é a mesma coisa"?

Não, meninos, a gente odeia tudo isso. E se é ruim pra vocês, imagina pra gente. Diz a história que, na época de Abraão, os judeus eram bem espertos e tinham o costume de respeitar suas mulheres nesse período. Eram  os dias da Tenda vermelha, quando todas a mulheres da tribo se enfiavam na barraca de cor bem simbólica, cheia de guloseimas, e lá ficavam, todas juntas. E só saíam depois da última gota de sangue. Eram dias em que não mulher trabalhava, e os homens tinham que tomar conta da vida cotidiana, mas pelo menos não tinham que aturar suas esposas e filhas chorando pelos cantos. O que acontecia lá dentro era segredo e só pertencia ao universo feminino, como tudo que se relaciona à essa etapa mensal, e numa espécie de irmandade: da esposa do chefe à escrava mais pobre, todas partilhava a mesma tenda, naquele período.

Seria bom, né?

Mas, como não temos isso hoje em dia, resta a vocês, meninos, um mundo de paciência e três conselhos que, se seguidos são verdadeiros atos de amor: Primeiro, mantenham certa distância, suficiente para deixar-nos quietas, mas não tanta que nos deixe desamparadas. Como não temos nossas "irmãs", frequentemente precisamos do carinho e atenção de vocês.

Segundo, lembrem-se: não é pessoal. A maioria das barbaridades faladas por  uma mulher em tpm não é verdadeira e, se bobear, ela nem se lembrará daquilo que falou numa crise de choro/raiva, então, relevem. É  quase como se um outro ser habitasse naquele corpo, naquele período. Você não gosta do inquilino? Nós também não, mas o nosso contrato com ele é vitalício...


Terceiro, contem! Arrumem um calendário e anotem, nos primeiros meses, as datas das crises "tpmáticas". Depois disso, percebam, o ciclo se repete a cada mês, é só contar! Assim vocês já saberão que o período se aproxima (e não são pegos todo mês de surpresa) e evitam que a gente ouça aquela maldita frase de novo: "Mas como? jáááá?"

Quarto (é, eram só três, mas me lembrei de mais um, que é essencial): Calma, vai passar!



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Coisas de tia velha

É simplesmente horrível quando você percebe que se transformou numa tia velha. Igualzinha àquelas que você odiava ir visitar quando era criança, e a sua mãe insistia que família é família, agora vamos que eu não tenho o dia inteiro e aproveita que eu to calma. Então você ia, à contragosto e, na melhor das hipóteses, se calhasse de estar de ótimo humor, forçava um sorriso aos cumprimentos e gracejos da tal tia, que, invariavelmente, seguiam o esquema:

A) Nossa, como você tinha crescido! B) parecia que tinha sido ontem a visita à maternidade, quando você nasceu! C) meu deus, mas já fazia tanto tempo assim? D) era todo esse tempo mesmo, porque foi antes do fulano morrer, coitado; E) a conversa descambava pro assunto de falecidos e casamentos, e você estava, enfim, dispensada da suas obrigações familiares, podendo se atracar na mesa de doces (toda tia velha que se preze tem uma mesa de doces - ou um baleiro - que toda criança precisa atacar sorrateiramente pra não ganhar uns beliscões da mãe, ou, no meu caso, um olhar terrível que dizia "pára com isso já ou sua bunda vai ficar quente antes mesmo de chegar no carro") Mas enfim, dizia eu, é horrível quando você percebe que se transformou numa tia velha. E isso tem acontecido cada vez com mais frequência.

Semana passada, por exemplo, o sobrinho da minha irmã apareceu aqui em casa; Há exatos seis anos que eu não via o moleque, mas ele continua igualzinho, no alto dos seus 10 anos. Nem muito mais alto o menino não está - mentira, ele deve ter o dobro do tamanho antigo, mas meus parâmetros são meio injustos, o que explica a idéia de que ele não mudou muito, do meu ponto de vista "idoso".

Daí que olhei para ele e o cumprimentei como se nenhum tempo tivesse se passado entre as duas visões: "Oi, Mateus, tudo bom?", ao que ele me olhou espantado, com aquela cara de "como é que essa dona aí sabe o meu nome?". Eu, percebendo o embaraço dele insisti em manter a conversação mandando um "você lembra de mim?" - PÉÉÉÉÉÉ, soou a primeira chamada para o cargo de tia velha - e ele, honestamente e sem se preocupar com a conversação, respondeu com um "Eu não!" - PÉÉÉÉ, soou a segunda chamada.
Não contente com a humilhação, mas sem me dar conta do desastre "auto-estímico" que eu armava contra mim mesma, prossegui: "Eu sou irmã da sua tia, conheci você há muito tempo, quando você era pequeno..." PRONTO! Estava armado meu circo! O pobre menino me olhou com aquela cara de "ah é? puxa, que legal, tia" e não disse nada, só sorriu um sorriso tão amarelo que fez cair a ficha: a idade tinha chegado. Já podia arrumar um baleiro, pois estava mais do que óbvio o meu papel na situação.
Minha irmã, vendo a cena, não perdoou: é, fia, você tá mesmo uma tia. E daquelas bem velhas!