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quinta-feira, 14 de julho de 2011

conto de fadas.

Ah, Querida,

Se, naquele mundinho maniqueísta-em-preto-e-branco que você criou, só há lugar para vilões e mocinhos e o seu papel é sempre o de vítima, me sinto honrado por fazer o papel de vilão: eles se divertem mais no desenrolar da trama e no fim da história há sempre o lugar para o arrependimento e a redenção.

mas não se iluda: isso só funciona assim no seu folhetim, porque na vida real é bem diferente.

E na vida real eu repouso uma cabeça bem tranquila no meu travesseiro, com a certeza de que nunca cometi nada de ilegal, imoral ou que engorde.

sigo então com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo, numa música bem bicho-grilo.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Y que vengan los veinte y seis.

E chega ao fim minha juventude. ou, antes, a primeira metade dela.

Entro na segunda faixa da população: aquela que é mais economicamente ativa; a partir de agora, dimimui o valor do seguro de automóvel para as mulheres, já que chego ao auge da minha fertilidade, e mulheres assim costumam ser mais cuidadosas.

Também significa que eu já posso usar renew da Avon, ou chronos da Natura. já é hora de morar sozinha. já deveria ler Cláudia, e espera-se que em breve eu encontre um homem também economicamente ativo, que formemos um casal, que moremos em um apartamento com um gato ou cachorro e em dois ou tês anos, arrumemos para os nossos pais os tão sonhados netos. Sou adulta, enfim.

Algo assim deveria ser o plano ou o esquema da minha vida. Mas, confesso, nada disso ainda é parte efetiva dela. exceto, talvez, o lance da fertilidade, e o fim da juventude. O mundo é hoje muito diferente daquilo que eu sonhei há dez anos. infinitamente diferente daquilo que eu planejei quando tinha quinze. Confesso que é um pouco frustrante ver que vários dos seus planos se perderam no caminho, que outros continuam os mesmos mas ainda não passam de projetos, e que outros parecem cada vez mais impossíveis, mas a chegada de um novo ano, e aquele desejo de aniversário feito no soprar das (26) velinhas, renovam as esperanças desde coraçãozinho de que alguns deles sairão dessa vez do projeto. e ver quanta coisa eu fiz no ano que se passou ajuda a dar aquele ânimo bacana pra soprar todas a velas de uma vez só.

Mas a verdade é que adoro meu aniversário. quando criança, amava  o fato de ter nascido em feriado, de ter sempre folga e de pensar que o dia era só meu. quando descobri que outras pessoas compartilhavam a data comigo, a frustração primária pela perda da exclusividade logo cedeu lugar à alegria: só tem gente legal fazendo aniversário comigo, e é assim até hoje.

então não tem muito o que falar: em pouco mais de duas horas é meu aniversário, eu estou feliz, mesmo com as bordoadas que a vida insiste em me dar, pra que eu não pense o tempo todo o quão sortuda e abençoada eu sou, e não vire uma metida (mais) insuportável, e sei que aquilo tudo que eu planejei vai demorar mais um pouquinho, mas vai chegar. porque é sempre assim, com quem pega o ônibus do cacupé: a lenda tarda, mas não falha.

quinta-feira, 31 de março de 2011

vinte quatro horas

Correr, correr...
Me entupir de coisas pra fazer, de problemas mundanos pra resolver, de contas pra pagar. correr, correr...
anotar tudo que tem que ser feito em um caderninho, porque a cabeça já não dá conta de lembrar de tudo que precisa ser feito, hoje, ontem, amanhã... correr, correr...
Sair de casa bem cedo, voltar bem tarde, fazer de noite o almoço de amanhã, comer correndo e tentar dormir, nas poucas horas que me restam, antes de levantar e correr pra começar tudo de novo. correr, correr...
E viver esquecendo tudo. tantar lembrar mas não conseguir. a dieta diária de esquecer alguma coisa. exceto uma. mesmo esquecendo do almoço, ou do jantar, do lanche, do guarda-chuva, do sapato, do livro ou mesmo da aula que deveria ter sido dada, tem sempre uma coisa que eu não olvido. É sempre uma coisa a me martelar a cabeça.

Nessas horas eu te odeio. e como te odeio. porque não esqueço de te amar.

domingo, 13 de março de 2011

Carta aberta ao melhor espetáculo da terra.

Para todos os amigos do Rio. Em especial, para Anita e Artur.


Qual o saldo de dez dias de carnaval?

O que será que me dá,
Que me bole por dentro, será que me dá,
Que brota à flor da pele, será que me dá,

Bem, além de uma gripe horrorosa - mais parecendo tuberculepra cancerosa (como diria mamãe) - além de uma unha quebrada no sabugo, além de alguns colares, além de leque de penas,  bonecas de barro, flor de cabelo e uma camiseta hand made que gerou comentários, além de milhares de fotografias, além de vídeos, além de tudo isso, ficou uma marca permanente.

E que me sobe às faces e me faz chorar,
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
E que não tem mais jeito de dissimular
E que não é direito ninguém recusar

Eu não acreditava em amor à primeira vista; não sei ainda se acredito; mas o fato é que algo aconteceu nesses dez dias, algo mudou pra sempre dentro de mim, e me fez uma pessoa mais feliz. Sabe quando algo bate dentro da gente, vira de lado, nos dá chutes na barriga?

E que me faz mendigo e me faz implorar
O que não tem medida nem nunca terá
O que não tem remédio nem nunca terá
O que não tem receita.

Esse amor, essa coisa que eu senti, sinto, sentirei, é assim, sem mais nem menos, que dá e passa, e volta e fica, e come bolo, e bebe cervejas e depois toma vinho e dá risada e se emociona nas pequenas coisas. Arrepia e faz arrepiar. Não sente culpa e não faz culpar. Isso que Anita e Artur me fizeram viver; amor de amigo, instantâneo.

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia

Algumas coisas talvez sejam grandemente pequenas demais pra escrever aqui, outras, pequenamente grandes para serem compartilhadas nessas páginas imorais, para serem maculadas em sua pureza, com descrições cansativas e insuficientes.

Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será

Não tem receita mesmo. Como poderíamos prever, Anita, Artur, que esses dez dias seriam tão incríveis? Como poderíamos prever que eu jamais me sentiria a terceira roda da moto, como poderíamos adivinhar que, tendo o Artur partido antes (para breve retorno), sentiríamos, eu e Anita, um vazio permanente, ainda que estivéssemos perfeitamente bem na companhia uma da outra?

O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

Como explicar pra todo mundo que passar a segunda feira do carnaval à luz de velas lendo poesia foi melhor do que pular loucamente no sargento pimenta? Coisa de maluco, mesmo. Coisa maravilhosamente louca.

(pausa:

Ai  que vida boa olerê, 
Ai que vida boa olara,
O estandarte do sanatório geral
Vai passar!)

E foram blocos, passeios, um cristo que teimava em não aparecer, para enfim me maravilhar na penúltima noite, e Paquetá e Parque Lage e Forte e Colombo e Saara e Dona Ivone e arcos da lapa e tour pelo centro e museu de belas artes e teatro rival e ancine e catedral-bordel e lomografia e fotografia e... e... e...

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar

E gentes, muitas delas. Flávia, Ronaldo, Fatih, Ruken, Alessandra, Akio, Leo, Rodrigo, Andressa... ah, eram muitos desculpem se não cito todos, mas saibam: estão todos aqui, comigo... mas, claro, não devo esquecer das queridas Cecília e Catarina, nem dos gatões Otto e Zico.

E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar

Ficam tantas coisas por comentar... tantas ainda por sentir... tantas já sentidas... confusas, mas deliciosamente insistentes. Sonhei que estava no Rio, e, de repente, era verdade. E era ainda melhor do que eu havia sonhado.

O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Pouco resta a dizer, ainda que haja muito a falar; restam-me as fotos e o amor que ficou, e, a vocês, o meu obrigada, amigos, por terem tornado esses diazinhos alguns dos mais especiais da minha vida.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Do amor e outros jogos de azar

Este é um texto de fevereiro de 2010. só pra constar. o de 2011 virá logo.

Do amor e outros jogos de azar:

Jogos de azar são coisas que você entra já sabendo que vai perder. Mesmo assim arrisca, achando que, de alguma forma, não vai acontecer com você. Uma idiotice juvenil, coisa de adolescente, aquilo de "não, comigo vai ser diferente"... Deixa eu te contar uma coisa: Não, não vai ser diferente.

Vegas não existiria se a realidade não fosse uma única: a casa sempre ganha. E, tido isso como fato, há somente um outro lado da corda: se eles sempre ganham, você sempre perde.

O amor é um jogo. Já me contaram que existem dois tipos de jogos possíveis: o amor-frescobol e o amor-tênis. no primeiro, os parceiros jogam juntos, tentando fazer com que a a bola fique sem cair por mais tempo, e com isso os dois ganham. No segundo, um jogador só vence se o outro perder, então cada um joga pra si.

Honestamente, não sei o quanto acredito na existência do tal do frescobol. O amor é um jogo daquele tipo em que você aposta no preto 13, sabendo que vai dar qualquer outro número e cor na roleta, mas a excitação de pensar que o preto 13 pode vir a cair te faz jogar de novo e de novo, mesmo diante das infinitas derrotas. Volta e meia cai na sua escolha, e você acha que sua sorte vai mudar. Mas dura só um pouquinho, logo em seguida ela pula pra outra casa, outra cor, outra roleta...

É, estou desiludida. Eu criei uma cidade brilhante, iluminada, rica, com infinitas possilidades... terminei apostando num cassino qualquer, sem certeza de que o meu número 13 vai ser escolhido, com você ao meu lado me dizendo que foi uma escolha errada, da mesma forma que o foram todas as escolhas erradas que eu já fiz. Escondendo teus erros e falhas atrás dos meus. Desconsiderando que foi você quem me mandou escolher entre o 13 e o 31, esfregando em meu vestido puído a quantidade de vezes que não te ajudei na hora de apostar. Esquecendo-se que eu havia perdido tudo, e mesmo assim juntei os trocados que me restavam pra jogar numa aposta improvável, 200 pra 1. Achei que ganharia, você me disse que ganharíamos, ganhamos... ganhamos?

Estamos ambos jogando as moedas que sobraram, em cassinos distintos, destilando para a mesa os rancores que temos um do outro.

O amor é um jogo de azar. E a casa sempre ganha. Perdemos nós.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O circo

Noite de espetáculo;
horas antes, a função:

todas aquelas roupas,
todas aquelas cores,
todas as maquiagens
batons,
pincéis,
sombras,
todos os grampos de cabelo
e o spray para arrematar.

Noite de espetáculo;
deixa o público entrar:

toda aquela música,
aquela dança,
aquela gente,
aquele riso (ah, as gargalhadas...)
aquelas luzes, aqueles sons.

Noite de espetáculo;
tudo, tudo em vão.

terminara a noite chorando sozinha,

como um palhaço borrado ao fim da sessão.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

ninguém sabe.

mas a verdade é que me falta qualquer coisa. qualquer coisa que ri, qualquer coisa que chora. me falta qualquer coisa de belo, de azul, de triste e de contente. me faltam palavras. me faltam coisas.

e outras me sobram. aos borbotões. desmancho-me em melancolia e saudade, em tédio e abandono. construo-me em risadas para precaver o grito histérico que quer brotar dos meus lábios.

nesses dias de sol, me pego a pensar que algumas coisas poderiam ter sido diferentes. eu só não consigo saber quais. enquanto isso, espero meu carpete de flores, que virá quando o carnaval chegar.



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Eu sou dona do meu nariz

Parece óbvio, mas só hoje eu me dei conta disso.
Sou dona dele, mando e desmando, viro pra onde quiser.

Torço, quebro, arranho, dou com a cara na parede ou no chão:
o nariz é meu e se eu quiser, eu arrebento mesmo.

Não tenho que dar explicações a ninguém, e isso muito me agrada.

Eu sou dona do meu nariz e quero cuidar dele sozinha.


Sozinha, ouviu?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

suas palavras me doeram

ler as palavras dela doeu na minha alma.
e compaixonei-me.
sem piedade, sem ironia.
fui sentir na carne a dor que não mais minha, mas que conheço tão bem.

e, diante da imobilidade, chorei.

domingo, 22 de agosto de 2010

do fundo do baú

mais uma "pérola" que achei durante minha faxina, num pedaço de papel:


Valeu a pena investir tanto tempo, tanta energia, tanto amor?
Agora que os dias são belos e frios eu visto meu agasalho, me conforto.
E tudo que quero é comer um quindim

sábado, 21 de agosto de 2010

Entre as ondas

O velho marinheiro que
perdeu as graças do mar
é velha caravela
sem vela
já não pode navegar

E se já perdeu
o encanto de se perder
perdeu o prumo
perder o rumo
navegar
navegar

-------

Achei esse texto hoje, escrito pelo meu próprio punho numa folha de caderno, no meio dos textos lidos na graduação. tem junto uma linha de flauta, só dizendo as notas, sem tempo sem nada, e o título diz "Música". Não lembro de ter escrito, até procurei na internet para ver se não era letra de alguma canção que eu tinha na cabeça na época. Não achei nada. Imagino que tenha sido escrito numa aula de literatura portuguesa, pela inspiração navegativa. Não sei se gosto, mas fica postado aqui como registro de uma época. A data é de 18/11/06

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

É tudo um grande engano


Eu queria, meu bem, eu juro que queria saber fazer joguinhos.


Seria bem melhor pra mim, acredite.

Mas eu também queria que você soubesse que eu não te amo. Nem sequer estou apaixonada. Você é ótimo, é verdade. Mas vale bem menos do que pensa.

E eu valho bem mais do que você me credita. A verdade é que possivelmente eu sou a melhor coisa que passou pela sua vida nos últimos tempos, com todo respeito a todas as mulheres que você comeu. E que não foram poucas. Mas eu sou melhor que elas, eu sei. Eu sinto.

Não se espante, não te quero pra marido, namorado, nada dessa coisa de vivermos eternamente juntos e sermos felizes para sempre. Não. Eu só queria te ter mais uma vez. Só mais uma. Sabe aquele lance "te levo pro motel, te como direitinho, de deixo em casa com beijinho de boa noite e acordo amassado em casa, sozinho"? Então, bem isso. Estou nessa vibe também.

Acontece que você pensa que eu sou outra coisa, que eu quero outra coisa. Mas não. Sei que a culpa é minha: o sangue italiano me deu essa coisa de ser intensa, chorar, gritar, rir, gemer e amar com muita facilidade. Mas olhe, se assuste não: é só sexo.

Agora vê se larga disso, venha cá e coma-me, por favor.

domingo, 8 de agosto de 2010

Eu te darei o céu, meu bem

"Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também".

Aquela era a canção deles, e nenhum dos dois entendia o porquê. 

Não foi assim que tudo começara. A bem da verdade, sequer sabiam como havia começado. Ainda hoje não sabiam se havia começado, se havia mesmo acontecido. Ela, ao menos, não sabia precisar. Mas lembrava-se de, em algum momento achar que aquilo não passaria de mais uma piada noturna em que esperava-se que ela dissesse a ele, 

"Te farei supor, vaidoso, que és o maior e que me possuis".

Ao passo que ele, falsamente, prometeria-lhe, 

"Abra os braços pra me guardar, que eu todo vou me entregar: Começo, meio e fim".

E, a despeito dessas promessas, eles bem sabiam como continuaria aquele verso, com a chegada do dia:

"Já não vales nada: és página virada, descartada do meu folhetim".

Então seria esse o pacto. estava selado, juramentado. Da mesma forma que os contratos no papel que eles expadiam durante o dia, daquela forma se firmavam os acordos da noite. O deles não teria por que ser diferente.

Mas foi.

Ele não soube explicar se foi porque nela os cabelos exalavam um cheiro exótico, ou se foram as pernas, que lhe prenderam num abraço mortal da jiboia durante o sono, do qual ele não quis se libertar.

Ela não sabia dizer se foi porque adormecera com a cabeça em seu peito, falando amenidades que não lembraria no dia seguinte, ou se fora o carinho inesperado recebido enquanto dormia.

Ambos desconheciam o motivo, que era muito mais simples do que aparentava: nos braços um do outro eles adormeceram, como não faziam com ninguém desde há muito, sem a pressa de fugir de si, sem a necessidade de explicar-se, sem a obrigação de ser alguém. 

Sabiam que não poderiam continuar, que o pacto deveria ser cumprido, pelo bem da esposa dele, do marido dela, do trabalho na firma, do emprego em que ela, secretária do colega, não dirigia a palavra a ele, exceto em raras ocasiões. Sabiam que aquela noite seria única. E ela sabia que teria que dizer o que lhe ia pela cabeça ali, naquele universo que não pertencia a ninguém, antes que ele se esvaísse com o tempo.

E foi assim que, sofrendo com a inesperada dor que os alcançara, as últimas palavras dela, logo antes de saírem daquele quarto de hotel pardieiro, ficariam gravadas na memória, nas paredes sujas, nos móveis, nos lençóis encardidos:

"Esse amor me derreteu. Ajoelha-te e esquece: me chupa e agradece a quem te machuca. Agradece, meu Deus".




segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Receita para curar soluço

Aperte o dedo médio da mão direita, na altura da primeira junta (entre a primeira e a segunda falange).

Em seguida, tome água; três goles, na posição normal. Depois tente tomar os mesmos gole de ponta cabeça.

Após isso, tome um susto, daqueles de morrer três vezes.

Volte para o copo d'água: um copo inteiro, sem respirar.

Agora dê três voltas em um pé só.

Se nada disso adiantar, olhe para o homem que te faz sofrer e mande-o à puta que o pariu.

Sucesso garantido.


(para o Ev, que sofreu uma crise de soluços, de causa aparentemente desconhecida)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quem é essa mulher?

Ela é ninguém.
Ela é mais uma entre as dezenas que passam, todas as noites.

Quem é essa mulher?

Você não se lembrará dela, semana que vem.
Nem ela de você, se isso lhe faz sentir melhor.

Quem é essa mulher?

Ela apenas passou, como passaram outras.
E sorriu, como sorriram outras.
E você notou, como notou as outras.
E desejou, como as outras.
E não possuiu, como possuiu outras.

Quem é essa mulher?

Ela é ninguém.
Ela é multidão.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A couve

Eu: "o que tem de almoço, hoje?"

Ela: "Fiz panquecas de carne pra você. E arroz, feijão e cove frô".

Adoro panquecas, adoro arroz, sou maluca por feijão, mas o jeito como ela fala da couve me comove.

é a couve frô mais bonita, singela e deliciosa do mundo. É até pecado chamar de flor. Aquela couve, a da Geni, é pura e simplesmente frô. Não ouse pensar diferente: qualquer outra coisa não é parte das delícias culinárias dela. Eu bem que sei.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

ao homem da minha vida

existem algumas coisas que você deve saber, amado homem da minha vida, se quiser de fato ser o homem da minha vida:

eu não como sushi. nem camarão, ou peixe, ou lula. esqueça de me convidar pra comer qualquer coisa que venha do mar. eu não vou.
eu adoro brócolis.
eu tenho os pés e mãos gelados. muito gelados. sempre.
eu tenho tpm, cólicas e mau-humor.
eu falo, falo, falo, até você cansar. e daí eu falo um pouco mais.
eu gosto de cafuné.
eu não gosto de tapete do banheiro embolado, nem de porta do armário aberta, ou da luz acesa quando não tem ninguém no quarto.
odeio lavar louça.
peça por favor, diga com licença e obrigado. é simpático e não faz mal a ninguém.

mas olhe, se você fizer o que eu vou dizer abaixo, você pode ter todas essas falhas, pode fazer tudo ao contrário, que eu te perdoo.

o homem da minha vida comerá azeitonas todos os dias, e será feliz. será feliz porque come azeitonas e eu.
pra quê mais?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Por um pouco de educação

Coisa que me irrita nessa vida é gente mal educada. Não estou falando daquela gente que cospe na rua, joga papel no chão - esses eu tenho raiva, nojo mesmo. Tampouco estou falando de gente que fala palavrão: faço parte deste grupo e aderi ao "direito ao foda-se" faz tempo. Palavrão é só uma palavra que as avós e os pais de alunos não gostam de te ouvir falar, nem o seu chefe, mas fora disso, por mim, tá liberado, porra.

Estou falando, quando me refiro aos mal educados, daquela gente que não aprendeu com a mãe e o pai que existem três expressões mágicas: são elas "por favor", "com licença" e "obrigado(a)". Tem gente que simplesmente te pede uma coisa, sem se dar ao trabalho de cogitar sua disponibilidade para isso. Como é que se sabe que o cidadão não pensou em você, no seu tempo, na sua vontade, etc.? Pelo simples fato dele não dizer "será que você podia, por favor, fazer tal coisa?". Se ele não parou pra te dizer um por favor, alguém ainda credita que ele parou pra pensar se você tem tempo ou vontade pra fazer o que ele quer que você faça? Duvido muito. E se tiver pensando, é pior ainda, pois pensou e não se importou com isso, a necessidade dele é mair urgente que o seu saco. 


E, no caso de eu ter errado, do cidadão ter cogitado, ter se importado e ainda assim não ter dito, é por mera comodidade e economia de tempo (dele). Vai doer, se ele disser as palavras mágicas? Não, não vai. Mas o infeliz acha que tá implícito, que não precisa, que não se usa isso mais, entre os iguais. Ainda mais se você é do tipo que, como eu, fala palavrão a torto e a direito. Cheguei a conclusão que isso passa a idéia, pras pessoas, de que você não está nem aí pra etiqueta social. Mas olha, eu to. Eu sou do tipo que pede licença até pra cachorro de rua, agradeço a formiga que saiu do meu bolo, e peço por favor pra chuva parar de me molhar. Tá eu sei que eu sou um exagero da natureza, mas, sério, custa mesmo demais pedir por favor e agradecer depois?

Eu ainda acho que essa minha mania de me importar com os outros vai me foder na vida, mas eu não desisto. Só deveria deixar de me importar. Mas não consigo.

Deixo aqui o meu manifesto solitário por um pouco mais de educação no mundo. Por favor. E obrigada.

terça-feira, 6 de julho de 2010

oração diária

Eu entro em casa com os últimos raios de sol. 
Ninguém ali está a me receber.
É nesse silêncio rosado do dia, 
nas cores de um inverno outonal,
que eu me agradeço ao mundo, 
e ele me responde sem cerimônias:
"mais um dia valeu a pena. 
o próximo, por favor." 

sábado, 3 de julho de 2010

A fruta da árvore... peixinho é.

Hoje eu descobri que gosto de Marina Lima. 

É, eu sei. Datado. Esquisito. Aleatório... Talvez nem tanto.

Estava aqui, nessa madrugada esquisita de sábado, pensando em como a vida anda rápido, dá voltas, pessoas entram e saem dos nossos destinos sem o menor aviso prévio - sim, sim, aquela coisa toda muito deprê e/ou emotiva e/ou motivacional e/ou saudável que vez ou outra fazemos para arrumar as idéias (as minhas com acento, sim senhor!) e seguir nossas existências - quando uma frase pulou na frente de toda essa baderna. Seis palavras, sem mais nem menos: "eu não sei dançar tão devagar". A rima veio menos de um segundo depois "para te acompanhar". Antes que me desse conta, já pensava em Marina Lima e digitava os versos no google, buscando pelo áudio.

Marina é uma cantora que eu jamais citaria entre as minhas favoritas. Certamente não entraria em nenhuma lista consciente que eu pudesse ter feito nos últimos anos, e provavelmente jamais figuraria em uma conversa minha com algum amigo. Mas ela surge assim, do nada, quando tem que vir.

Marina é a cantora da minha infância, de quando lembro da minha mãe ouví-la no aparelho de som a todo volume, e me chocar  - aquele choque de incompreensão - com versos que diziam "é que eu tô grávida, grávida de um beija-flor, grávida de terra, de um liquidificador. E vou parir um terremoto, uma bomba, uma cor, uma locomotiva a vapor". Lembro de pensar coisas como "Como pode alguém cantar que está grávida?" Grávida parecia uma palavra tão feia para "esperando neném"... E ainda por cima esperando um trem! Entre choques e desgostos, cresci ao som de Marina. 

Foi dela a minha primeira versão de Fullgás, foi Marina que me contou o que era topless e que as meninas andavam de bundinha de fora. Conheci o primeiro carente profissional com ela. Por essas e outras, como não gostar de Marina? Como não ter Marina no fundo do imaginário? Marina não é luxo nem lixo, Marina, em mim apenas existe. À francesa.