Nunca pensei que minhas aulas de literatura portuguesa V fossem ser extremamente úteis na minha vida. Em verdade que não são, mas de certa forma, foi a pseudo-leitura dos textos da disciplina que me embasaram na escrita desse texto de hoje.
Confesso: nunca pensei em mim como uma pessoa exótica. Afinal, uma mulher branca, jovem, urbana, com curso superior é exatamente igual à todas as outras mulheres jovens, brancas, urbanas e com curso superior. Igual no que tange à representação de classe, sim, mas sempre me considerei mais uma em meio à multidão. Nem muito feia, nem muito bonita. Mais pra muito magra do que pra gostosa. Nem loira, nem mulata: absolutamente padrão. Convenhamos, me encontro naquela faixa humana entre a Gisele Bundchen e o Tiririca, que passa a vida sem ser "descoberta" e sem ser escancaradamente feia. E esse nicho de normalidade sempre tendeu pra mandar a auto estima lá pro pólo sul. Mas eu sobrevivia.
Daí que um dia pirei o cabeção e me mandei, de mala e cuia, pra califórnia. Chegar aqui foi muito esquisito, no sentido sócio/cultural e étnico da coisa. Pra começar, todos os meus padrões e parâmetros foram jogados no lixo. Não, eu não sou branca. Branco, aqui, só quem se chama Smith, tem olhos azuis, cabelos loiros (naturais ou à base de H2O2) e uma ascendência anglo-saxônica (ou nórdica - não dá pra negar que aqueles galegos lá da suécia e da noruega são brancos). Sim, meus caros, nosso chamado homem branco, o português malvado que matou os índios brasileiros e escravizou os africanos, esse não é considerado branco. Na melhor das hipóteses, ele é considerado europeu, e daí é um pseudo-branco.

Também não sou considerada latina, já que ser latino significa ter cara de índio, 1,50m de altura, falar espanhol e me chamar Maria, Carmen ou Lucía. Do alto dos meus 1,70m, dessa pele morena que deus não me deu e com cabelo claro, falando um portunhol de meia-tigela, sou veementemente rejeitada pela classe "latina", restando recolher-me à insignificância do rótulo de "brasileira".
E é aí que eu chego ao ponto que iniciou essa conversa toda, aquela coisa das aulas de literatura portuguesa e tal. Nessa disciplina estudávamos a relação metrópole (portugal) colônias (africanas) e o estranhamento envolvido nela, perceptível na literatura. Era um estranhamento que habituou-se chamar de mesmo-outro, em que o papel de "mesmo" é desempenhado pelo escritor, notavelmente um colono (e, portanto, branco) e o papel de outro é desempenhado pelo mundo que ele observa, notavelmente os colonizados (e, portanto, negros). Sei que a explicação é bastante falha, mas isso é um blog, se quiser mais detalhes, vai ali no
sábio da montanha e digita "relações coloniais na literatura portuguesa". Aparece um monte de coisas, entre elas o texto de
Francisco Noa, que me pareceu bem pertinente.
E, desde que cheguei aqui, o que sinto, todos os dias, é que desempenho o papel de "outro". Tão acostumada que eu estava, no meu posto de "mesmo", aquele de mulher jovem, branca, urbana e universitária - papel típico do terrível colonizador, me faltando apenas um pênis para ocupar o papel com propriedade, nesse mundo falocêntrico - foi uma reviravolta. De uma hora pra outra fui jogada no extremo oposto: mulher, mestiça (afinal, todos os brasileiros são, né? Eu então, praticamente uma globeleza), de um país tropical, "em desenvolvimento", com uma língua estranha: o estágio mais completo de o que eles chamam de minoria. E junto com "minoria" vem a palavra "diferente" e daí pra "exótica" é um pulo.
E é "exótico" pra tudo: sotaque exótico, feições exóticas, estilo exótico, país exótico... Ai, confesso, tem hora que cansa. Pior mesmo é a quantidade de vezes que já me pediram pra dançar samba - logo eu, com essa ginga e brasilidade nata - e a quantidade de vezes que tive que explicar que A) "Nem toda brasileira é bunda" B) prostituição não é crime no brasil, se você tiver mais que 18 anos, mas cafetinagem é. C) isso não significa que toda brasileira seja puta. D) o "cara de braços abertos" é o cristo redentor, E) não, ele fica no Rio, não em São Paulo. F) São Paulo é maior que Nova Iorque - nem sei se é de fato, mas quando digo isso eles entendem que temos cidades muito grandes. Já ganhei até elogio porque sabia dirigir do lado certo da rua (sim, a pessoa pensou que o resto do mundo dirigia com a mão inglesa). Minha conclusão? Mesmo aqueles com as melhores intenções pecam pela ignorância. Os estadunidenses (eles ficam surpresos quando eu me recuso a chamar ao país de América e a eles de americanos), em sua maioria, não sabem nada do resto do mundo.

Essa ignorância do "mesmo" em relação ao "outro" colocou minha "sabedoria" em cheque: o quanto eu, como "mesmo" conheço do "outro"? Percebi que meu conhecimento em relação ao mundo se resume à américa portuguesa (como vocês sabem, é só o brasil), américa inglesa (entenda-se EUA) e europa ocidental. Sei vagamente da américa espanhola, porra nenhuma do canadá (exceto que tem duas línguas e muita neve, e os estadunidenses não gostam deles), levemente da áfrica e ásia, um tisco do leste europeu e nada da oceania. Caramba! Isso, pra quem é fã de curiosidades inúteis como eu, foi doloroso! Pra remediar essa situação, essa noite passei algumas horas (com auxílio do google earth, google sky e a wikipédia - que, juntos, formam praticamente o guia do mochileiro das galáxias) estudando o mundo, a vida, o universo e tudo mais... Pensava comigo: Ainda é tempo, Flipper: até breve, e obrigado pelos peixes!