terça-feira, 19 de janeiro de 2010

It's not me, its us.

O que mais quero é chegar em casa. Enquanto espero, fumo um cigarro ou dois, contando os dias pra voltar. Chegarei e baterei na sua porta. Possivelmente ela não abrirá.

Sabe Deus se haverá outra mulher a dormir na cama que acostumei a chamar de minha. Meu cheiro não está mais em cada lençol, em cada canto da sala. Minhas coisas já foram empacotadas, suas dores já foram sofridas.  Restam as minhas dores a latejar. Desculpe, mas não pude mais aguentar.

O trânsito está horrível, e chove. Minha alergia te enganará, escondendo minhas lágrimas. Sento-me ao pé da porta, esperando em vão por um abraço que não virá.

Passam as horas. Secam as lágrimas, fica o vazio. Escuto passos, os teus passos. Ergo-me e procuro ajeitar os cabelos, recompondo em vão minha figura. Tu olhas pra mim, e adivinho um sorriso, mas ele não vem. Teus olhos não mais brilham, teu corpo se crispa: não me queres ali, mendigando à tua porta.

Nenhuma palavra é trocada. Me abres a porta. Eu entro. Continuo a esperar o abraço que não vem. Espero um conforto, em vão. Não nos conhecemos mais. Não somos mais aqueles que éramos. Nossos conjuntos não mais se intercalam, não tocamos as mesmas músicas. Talvez ainda haja amor, mas ele não parece ser mais suficiente.

Me ofereces uma xícara de chá. Eu aceito. Tomamos em silêncio, olhando um ao outro, tentando enxergar naquele estranho o ser que amamos e pelo qual nutrimos tantas esperanças, fizemos planos, sonhamos juntos.  Não, as pessoas não existem mais. Procuro entender onde foi que nos perdemos. Não sabemos.

Eu não quero nada mais do que ver seu rosto quando voltar pra casa. E talvez conversemos pela tarde, talvez tomemos um chá, talvez ainda haja "nós". Eu sei que não é justo, mas não resta mais nada a fazer, agora.

Perdoa, mas não consegui aguentar. Fraqueza sempre andou junto com a força. Foi preciso força pra reconhecer minha fraqueza. E o silêncio só aumentou a distância que já havia entre nós. O medo foi a força que não nos deixou andar.


Não foi o amor que acabou, foi a dor que ganhou a corrida. O problema não é meu, não é seu. Its not me, it's us.


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(ao som de Chinese - Lily Allen)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Do desamor

(Segundo Favia C.)

Ia escrever aqui, mas ela escreveu tão bonito, que disse tudo que eu queria dizer. Copio, então, na íntegra, o texto dela, disponível aqui.

Do desamor

Vinte e nove anos eu tenho, e há vinte e nove anos que me falam exaustivamente de amor. Amor, amor, amor - sempre ele. Amor de pai e mãe, de avô e avó, de primo, coleguinha, namorado, amigo. Amor de todo jeito, até dos (e pelos) bichinhos de estimação. A palavra amor parece ser a que deve reger a roda da vida, o sucesso profissional e pessoal, os humores, o morar, dormir, acordar, parir e viver. É uma overdose de amor, um coma alcoólico de amor.

Irônico nisso é que, bem sabemos (e desculpe se queimarei os castelos de algum desavisado), o amor tal como o conhecemos é mais uma bela invenção humana, construída, aperfeiçoada e adornada ao longo de séculos e séculos, principalmente no sentido estrito do amor romântico - esse sem-vergonha. Vivemos um sentimento que, a bem da verdade, ninguém sabe muito bem o que é. Afeto, carinho, paixão, compaixão... Tudo isso, ao fim e ao cabo, não é amor, em diferentes gradações e espécies? E não é essa diversidade de formas de apresentação que traz o “não-sei-quê que faz a confusão”?

Não que o amor seja uma criação perversa ou algo ruim: imagine! Se não fosse esse sentimento tão nobre e humano, teríamos feito muito pouco neste planetinha que nos foi legado. Agora, se há um sentimento outro, sobre o qual nunca ouço falar, embora o veja espalhado pelo mundo, é o desamor.

Ah, o desamor: palavra que traz uma carga imensa de lágrimas e ranho. Quando ela me vem à cabeça, a imagem que faço é daquela bolerosa mulher dos anos 50, vestida em tafetá de seda azul-rei, sozinha, sentada à bancada de um bar na elegantíssima Copacabana de antanho. Enquanto Dolores Duran canta lá no palco um samba-canção cheio desamor, aquela mulher, amargando uma tremenda dor de cotovelo, acende o vigésimo Gaulloises e pede ao barman mais uma dose de whisky - cowboy. Dolores, doce e cruel, entoa:

Toda amargura
Que há no céu
Que há na terra e no mar
Nasceu talvez da tristeza que tens no olhar
No céu há um sol a brilhar
Que beija a terra e o mar
Só tu continuas assim
Dia e noite, a chorar


Mas e o dia seguinte daquela noite etílica e fumarenta?

Primeira hipótese.

Ele não vai voltar; a despeito das crianças, do apartamento na Bolívar e das festas na pérgula do Copa, o desquite é inevitável. Ele foi seu primeiro namorado, o homem a quem seu pai a entregou, com pompa e circunstância, no altar do Mosteiro de São Bento. Ele era seu único e verdadeiro amor, e agora ela o via escapar por entre os dedos e cair nas mãos duma corista do Night and Day. Pois é: além de ganhar a medonha pecha de desquitada, ainda teria de suportar perder seu homem, de fato e direito, pra uma Certinha do Lalau. Como viver com isso?

Por uma ironia cruel
Alguém começou a cantar
O samba canção de Noel
Que viu nosso amor começar
Só falta agora
A porta se abrir
E ele ao lado de outra chegar
E por mim passar
Sem me olhar


E já era manhã quando, levando os scarpins na mão, deixou seus pés tocarem na areia úmida do Posto 4. Debruçado num janelão que se abria pro atlântico sul, o poeta (havia muitos, de verdade, naquele tempo) via aquela mulher que, lenta e firmemente, entrava no mar, submergindo sem susto, como se encharcar os pulmões de água até fenecer fosse a única coisa sábia a fazer.

Segunda hipótese.

Ele não vai mesmo voltar, e essa certeza dói demais. Ela ama aquele homem de tal forma, e há tanto tempo, que nem sequer se lembra de como era viver sem amá-lo. E será que é possível desamar? Há de ser: é isso ou a morte. Morrer duas vezes é pensar nos meninos criados por uma madrasta vedete de teatro de revista. Morrer três vezes é saber que mal completou 30 anos, que tem bons pulmões (apesar do cigarro), que é linda e cobiçada e que dará cabo da própria vida se não aprender o que é desamor.

Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi
Que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol


Dobrando a esquina da Duvivier com a praia, ela viu a bruma morna sobre o mar amanhecido. Faria um dia quente, pensou. Caminhando pelo rasinho, molhando a barra do vestido, sorrindo e passando os dedos pelos loiros e anelados cabelos, chegou até seu apartamento. Hoje, levaria os filhos pra um mergulho. Depois, passaria na modista. Durante o almoço, planejaria o divórcio em Montevideo. E, antes de voltar pro jantar, compraria o disco daquele baiano moderno de que andavam falando. Já não fazia sentido algum ouvir samba-canção, se queria mesmo era viver em compasso de bossa nova.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Dormir

E só acordar quando o inverno passar. Ouvindo o sussuro do mar entoando uma bela canção. Ninarei meus sonhos, envoltos em brumas.



Perdi minha concha, alguém viu? Molusco desprotegida procura concha caracol deseperadamente. Caso encontre, entregue pra mim, prometo fazer bom uso dela. Obrigada.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Silêncio



Uma passagem longa e torturante.
Passarei aos gritos.
Sobreviveremos, todos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

trilha sonora para enfossar.

Em momentos de crise, curto uma fossa fudida. Mas fossa que é fossa precisa da trilha sonora perfeita, aquelas canções que te fazem chorar mais que a Bridget Jones - Não sei porquê, mas eu tenho na lembrança a imagem dela chorando horrores, com umas 20 caixas de lenço de papel - de deixar seu mundo desabar, se sentir o pior dos mortais.

minha última lista é até eclética:

- Love is a losing game - Amy Winehouse
- Everybody Hurts - R.E.M
- Mais vinho pra mim - Samambaia Sound Club
- Space Oddity - David Bowie
- Conversa de botas batidas - Los Hermanos (na verdade basicamente qualquer uma deles, pode me deixar muito feliz ou muito triste)
- I want you - Bob Dylan
- é você que tem - Mallu Magalhães (é, até ela)
- Bridge over a troulbe water - Aretha Franklin
- kiling me softly with this song - Aretha Franklin
- Honestly - zwan

não são muitas as músicas dessa lista de hoje, mas é que eu tenho o dom de ouvir a mesma por horas a fio.

que mais? deve ter umas vinte milhões mais. milhares do Chico, mas dessa vez não rolou. quem sabe na próxima?


em tempo: o blog Trilha Para tem um monte de músicas bacanas, pra cada momento da vida. Não achei pra fossa, mas num procurei muito também.

Com cara de antigamente...

Como não to com vontade de falar nada, será rápido:

Rock com um quê de ontem:

The Generationals - When they fight, they fight.
Do álbum Con Law, lançado no ano passado.
Segue o vídeo (mais pelo áudio, já que não é um clipe, mas um fan video):



e a letra:


When they fight, they fight
And when they come home at night they say,
"i love you, baby."

Was it too much too soon,
Or too little too late?
He got the message she left on his car, in the rain.

And then the words they come to you,
driving away.
You just can't let it go.

And when they fight, they fight,
And when they come home at night they say,
"i love you, baby."

And when it all comes crashing down,
what can you do,
to find what you're looking for?
And then the words will come to you,
driving through the rain.

But there'll be no one there to say them to anyway.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Circular

a esperança constrói o sonho,
que constrói o plano,
que constrói a vida,
que constrói o riso,
que constrói a esperança.




tá, sei que não ficou grande coisa, mas essas cinco palavras não paravam de ecoar na minha cabeça.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Invertendo valores...

Nunca pensei que minhas aulas de literatura portuguesa V fossem ser extremamente úteis na minha vida. Em verdade que não são, mas de certa forma, foi a pseudo-leitura dos textos da disciplina que me embasaram na escrita desse texto de hoje.

Confesso: nunca pensei em mim como uma pessoa exótica. Afinal, uma mulher branca, jovem, urbana, com curso superior é exatamente igual à todas as outras mulheres jovens, brancas, urbanas e com curso superior. Igual no que tange à representação de classe, sim, mas sempre me considerei mais uma em meio à multidão. Nem muito feia, nem muito bonita. Mais pra muito magra do que pra gostosa. Nem loira, nem mulata: absolutamente padrão. Convenhamos, me encontro naquela faixa humana entre a Gisele Bundchen e o Tiririca, que passa a vida sem ser "descoberta" e sem ser escancaradamente feia. E esse nicho de normalidade sempre tendeu pra mandar a auto estima lá pro pólo sul. Mas eu sobrevivia.

Daí que um dia pirei o cabeção e me mandei, de mala e cuia, pra califórnia. Chegar aqui foi muito esquisito, no sentido sócio/cultural e étnico da coisa. Pra começar, todos os meus padrões e parâmetros foram jogados no lixo. Não, eu não sou branca. Branco, aqui, só quem se chama Smith, tem olhos azuis, cabelos loiros (naturais ou à base de H2O2) e uma ascendência anglo-saxônica (ou nórdica - não dá pra negar que aqueles galegos lá da suécia e da noruega são brancos). Sim, meus caros, nosso chamado homem branco, o português malvado que matou os índios brasileiros e escravizou os africanos, esse não é considerado branco. Na melhor das hipóteses, ele é considerado europeu, e daí é um pseudo-branco.


Também não sou considerada latina, já que ser latino significa ter cara de índio, 1,50m de altura, falar espanhol e me chamar Maria, Carmen ou Lucía. Do alto dos meus 1,70m, dessa pele morena que deus não me deu e com cabelo claro, falando um portunhol de meia-tigela, sou veementemente rejeitada pela classe "latina", restando recolher-me à insignificância do rótulo de "brasileira".

E é aí que eu chego ao ponto que iniciou essa conversa toda, aquela coisa das aulas de literatura portuguesa e tal. Nessa disciplina estudávamos a relação metrópole (portugal) colônias (africanas) e o estranhamento envolvido nela, perceptível na literatura. Era um estranhamento que habituou-se chamar de mesmo-outro, em que o papel de "mesmo" é desempenhado pelo escritor, notavelmente um colono (e, portanto, branco) e o papel de outro é desempenhado pelo mundo que ele observa, notavelmente os colonizados (e, portanto, negros). Sei que a explicação é bastante falha, mas isso é um blog, se quiser mais detalhes, vai ali no sábio da montanha e digita "relações coloniais na literatura portuguesa". Aparece um monte de coisas, entre elas o texto de Francisco Noa, que me pareceu bem pertinente.

E, desde que cheguei aqui, o que sinto, todos os dias, é que desempenho o papel de "outro". Tão acostumada que eu estava, no meu posto de "mesmo", aquele de mulher jovem, branca, urbana e universitária - papel típico do terrível colonizador, me faltando apenas um pênis para ocupar o papel com propriedade, nesse mundo falocêntrico - foi uma reviravolta. De uma hora pra outra fui jogada no extremo oposto: mulher, mestiça (afinal, todos os brasileiros são, né? Eu então, praticamente uma globeleza), de um país tropical, "em desenvolvimento", com uma língua estranha: o estágio mais completo de o que eles chamam de minoria. E junto com "minoria" vem a palavra "diferente" e daí pra "exótica" é um pulo.

E é "exótico" pra tudo: sotaque exótico, feições exóticas, estilo exótico, país exótico... Ai, confesso, tem hora que cansa. Pior mesmo é a quantidade de vezes que já me pediram pra dançar samba - logo eu, com essa ginga e brasilidade nata - e a quantidade de vezes que tive que explicar que A) "Nem toda brasileira é bunda" B) prostituição não é crime no brasil, se você tiver mais que 18 anos, mas cafetinagem é. C) isso não significa que toda brasileira seja puta. D) o "cara de braços abertos" é o cristo redentor, E) não, ele fica no Rio, não em São Paulo. F) São Paulo é maior que Nova Iorque - nem sei se é de fato, mas quando digo isso eles entendem que temos cidades muito grandes. Já ganhei até elogio porque sabia dirigir do lado certo da rua (sim, a pessoa pensou que o resto do mundo dirigia com a mão inglesa). Minha conclusão? Mesmo aqueles com as melhores intenções pecam pela ignorância. Os estadunidenses (eles ficam surpresos quando eu me recuso a chamar ao país de América e a eles de americanos), em sua maioria, não sabem nada do resto do mundo.

Essa ignorância do "mesmo" em relação ao "outro" colocou minha "sabedoria" em cheque: o quanto eu, como "mesmo" conheço do "outro"? Percebi que meu conhecimento em relação ao mundo se resume à américa portuguesa (como vocês sabem, é só o brasil), américa inglesa (entenda-se EUA) e europa ocidental. Sei vagamente da américa espanhola, porra nenhuma do canadá (exceto que tem duas línguas e muita neve, e os estadunidenses não gostam deles), levemente da áfrica e ásia, um tisco do leste europeu e nada da oceania. Caramba! Isso, pra quem é fã de curiosidades inúteis como eu, foi doloroso! Pra remediar essa situação, essa noite passei algumas horas (com auxílio do google earth, google sky e a wikipédia - que, juntos, formam praticamente o guia do mochileiro das galáxias) estudando o mundo,  a vida, o universo e tudo mais... Pensava comigo: Ainda é tempo, Flipper: até breve, e obrigado pelos peixes!

Confia e protege

Continuo a me desnudar. Gostem ou não, preciso disso aqui, hoje.
I Coríntios 13 
(...)4) O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, 
5) não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; 
6) não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
7) tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8) O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9) porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos;
10) mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
11) Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12) Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
13) Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.

Sim, essa é uma citação da bíblia. Infelizmente, o Renato Russo fez o favor de colocá-la numa música junto com o soneto 11 de Luís de Camões, a letra virou balaio e agora todo mundo torce o nariz. Mas a carta é linda.

Eu não sou leitora fiel da bíblia, nem batizada tive a oportunidade de ser. Mas o livro mais vendido do mundo tem suas pérolas, e eu, pessoalmente, considero este trecho uma delas.

Discordo de algumas coisas ditas aí, entre elas a idéia de que o amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". Não é verdade. E o amor acaba, sim. Para que isso não aconteça, são necessárias duas coisas: confiar e proteger.

Zela pelo teu amor, assim como pela pessoa que amas. Confia no teu amor e no amor do outro. É o que está dito, o amor "não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade".

Todos erramos, talvez diariamente. Todos repetimos os mesmos erros, algumas vezes. Mas o amor deve se sobressair. Até que um dia os erros e injustiças são tantos que amar não é mais suficiente.

Nosso amor é grande. Tem muito a render ainda. Mas os erros... Nossos erros são velhos, recalcados e doloridos. Erremos menos. Confiemos mais. A distância não importa, pode-se estar sozinho estando lado a lado. Confiar não é uma questão de lonjura. É um ato de amor.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Receita para comer o homem amado


Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.


publicado no livro Falo de Mulher


(ARRUDA LEITE, Ivana. Receita para comer o homem amado. Blog de Ivana Arruda Leite. Disponível em < http://doidivana.wordpress.com>. Acesso em: 8 de janeiro de 2010.)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Apenas mais uma história

Perdoem a minha indecência, mas hoje resolvi posar nua. Despi-me de todos os pudores, fiz uma bela maquiagem e postei-me diante da câmera. Vestia uma camisa masculina e saltos altos. Altíssimos aliás. O fotógrafo me olhou de esquiva e disse, Tira tudo.

Ainda em choque pela ordem tão fria, desinteressada até, desci do salto e desabotoei a camisa, desconcertada. Feito isso, enquanto procurava cobrir-me com meus próprios braços, buscando salvar o pouco de decência que me sobrava, fiquei surpresa quando ele me olhou de novo e, surpreso, revelou, Não, eu me referia à maquiagem, pode por suas roupas de volta.

Humilhada, perdida, corava até as orelhas, enquanto juntava meus pequenos trapos e olhava para o chão. O fotógrafo, percebendo meu incômodo, procurou me confortar, Nada é mais nu do que uma mulher mostrar sua verdadeira face, sem truques e tintas; Talvez não seja tão bonito, retruquei ainda incrédula com o que ouvira, Mas com certeza é o mais honesto, ouvi.

O diálogo e a cena acima nunca aconteceram. O que acontecerá aqui, hoje, é ainda um outro tipo de nudez. Se chegaram até aqui esperando ver fotografia com uma mulher pelada, perderam seu tempo. Hoje, desnudo minh'alma.

Dizia um poema - ou um verso, ou um livro de Drummond, já não me lembro mais - que "amar se aprende amando". Pois eu aprendi algo um pouco diferente, nessa minha curta vida: amar se aprende sendo amado.
Amar se aprende perdendo o amor, amar se aprende vendo e sim, amar se aprende amando.

É possível, também, desaprender a amar. É possível aprender a se fechar em copas, por medo de se ferir. É possível magoar o outro, aquele que mais te ama, por medo.

Eu passei por todas essas coisas. tive medo. medo de amar de novo. medo de dar meu coração a alguém, por achar que ninguém merecia tamanho ato de amor. Magoei, fui inconsequente. Eu quase perdi tudo aquilo pelo qual vi outras pessoas lutarem, chorarem e se deseperarem, impotentes. Eu abri mão de tudo, de bom grado.

Mas um dia, eu acordei. Percebi que minha proteção me tinha deixado sozinha. Protegida, sim, mas solitária. Indiferente. Oca. Na minha linda torre de marfim. Pensei, pensei e decidi: Eu quero minha vida de volta.

Com isso, meus caros, não tenho medo de afirmar: minha vida só será completa quando ele estiver ao meu lado. E por isso, eu estou voltando. Com um sorriso nos meus lábios impacientes. E todo amor do mundo, aquele que eu só aprendi a viver depois de ser amada, depois joga-lo fora, depois de vê-lo e, finalmente, depois de amar.

Me espera, meu bem, que eu to chegando.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Histórias de Cronópios e de Famas

Primeira e ainda incerta aparição dos cronópios,
famas e esperanças


Fase mitológica


Costumes dos famas


Aconteceu que um fama dançava trégua e dançava catala na frente de um armazém cheio de cronópios e esperanças. As mais irritadas eram as esperanças porque elas tratam sempre de que os famas não dancem trégua nem catala e sim espera, que é a dança que os cronópios e as esperanças conhecem.

Os famas se colocam de propósito na frente dos armazéns, e desta vez o fama dançava trégua e catala só para aborrecer as esperanças. Uma das esperanças depositou no chão seu peixe de flauta — pois as esperanças, como o Rei do Mar, estão sempre assistidas por peixes de flauta — e resolveu interpelar o fama,
dizendo-lhe assim:

— Fama, não dance trégua nem catala defronte deste armazém.

O fama continuava dançando e ria.

A esperança chamou outras esperanças, e os cronópios fizeram roda para ver o que ia acontecer.

— Fama — disseram as esperanças. —Não dance trégua nem catala na frente deste armazém.

Mas o fama dançava e ria, zombando das esperanças.

Então as esperanças se jogaram em cima do fama e bateram nele. Deixaram-no caído ao lado de uma estaca, e o fama se queixava, envolvido em seu sangue e em sua tristeza.

Os cronópios chegaram furtivamente, aqueles objetos verdes e úmidos. Cercavam o fama e o lastimavam, dizendo-lhe assim:

— Cronópio cronópio cronópio.

E o fama compreendia, e sua solidão era menos amarga.

(CORTÁZAR, Julio. Histórias de Cronópios e de Famas)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ballet moderno

Na primeira vez que ele a viu, sua atenção foi dominada pela forma que ela se movia: os movimentos não combinavam com a música. Ela não dançava, mas seus gestos e seu mover lembravam, remotamente, uma espécie de ballet solitário e surdo, já que ela parecia sequer ouvir o ritmo dominante, pairando em uma realidade outra, única. Torceu o nariz: aquilo não podia ser de bom tom; Definitivamente, não era de bom gosto.

Da segunda vez, a reconheceu instantaneamente por seus gestos mas, desta vez, o que antes lhe parecera grotesco lhe atraiu simpatia. Ele a cumprimentou, timidamente, mas ela estava absorta demais em algo que ele insistia em chamar de dança, e sorriu apenas.

Na terceira vez, ele voltara ao bar na esperança de conseguir vê-la. Passara a noite inteira de olho na porta, torcendo que ela chegasse, mas ela não fora. O bar parecia demasiado grande e vazio sem a presença daquela moça tão singular. Na saída, ele reconheceu aquele andar partindo de outro bar e, ao cruzar com ele, ela sorriu entusiasmada e lhe dirigiu a primeira palavra: "amanhã".

Era a quarta vez que se encontravam. Ele se sentia desarticulado e tímido. Ela lhe parecia linda e delicada, os movimentos nunca lhe pareceram tão harmoniosos, e ele sabia serem seus olhos que assim viam, sabia que ela ainda era a mesma moça desritmada da primeira noite. Ela sorriu, o tomou pela mão, lhe estendeu uma bebida: Vamos dançar? Desculpe, eu não danço... Nem eu, vamos dançar? O sorriso lhe era tão irresistível, que ele foi.

Dançaram; ele acanhado, ela confiante, uma dança lenta que em absoluto reconhecia ou admitia o rock animado que dominava o bar. Era uma música só deles. Ele entrou naquele mundo esquisito timidamente, mas o sorriso dela era irresistível. Dançaram, dançaram. partiram de lá, foram à casa dele, bailando pelas ruas. Naquela noite, ele aprendeu que podia dançar, sem ouvir a música, sem sequer mover o corpo, apenas com o calor do espírito. Dançava pelas ruas, muros, telhados, dançava nos ônibus lotados, sem temer os olhares alheios, pois tinha em si o mais desejado dos olhares: o da (agora - e para sempre dali em diante) sua bailarina de sonho.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Felicidades III

Ela gostava das mesmas coisas. Não era fã de novidades e mudanças, exceto aquelas causadas por ela mesma. Isso se aplicava a tudo, inclusive às metáforas: era uma garota de uma metáfora só. Não era bem verdade, ela tinha algumas metáforas de que gostava, mas sua poligamia metafórica girava sempre em torno das mesmas expressões. Isso acontecia, em verdade, pois ela pensava que aquelas expressões funcionavam tão bem, que não havia razões para buscar outras. Não que não gostasse de poemas e dos jogos da linguagem, apenas sentia que havia encontrado as suas expressões, aquelas que cabiam a ela.

De tudo que havia, seu casamento mais duradouro era com o frio. Achava lindos os dias ensolarados de inverno, e o outono propiciava as cores mais bonitas do ano. Mas não gostava dos dias de chuva. Esses, ela escondia num canto esquecido da memória, torcendo para que a poeira e o tempo os deformassem, e a fizessem esquecer de sua existência. Talvez por isso sua metáfora favorita fosse aquela que explicava a felicidade como um raio de sol que te aquece no frio.

Era velha, a pobre metáfora. Pequenina, franzina, e nem era muito original. Mas era, de tudo que ouvira, o que mais havia de verdadeiro em sua vida. E era assim pois ela sentia na pele: Quando pensava nos anos de colegial, lhe vinham à mente os recreios passados ao sol, fazendo piquenique com as amigas. É que elas inventavam de cozinhar guloseimas em casa, e traziam para as outras provarem. Escola pequena, meio alternativa, tinha dessas coisas. Essas lembranças lhe aqueciam o coração, da mesma forma que o sol daqueles dias frios lhes aqueciam os corpos. Então, desde há muito, habituara-se a pensar na felicidade como algo que lhe aquecia, mesmo quando os dias eram frios.

Os anos passaram, ficaram com ela as lembranças e as metáforas. Agora, longe de todos, ela olhava pra trás e buscava, não sem muita dose de medo, encontrar motivos para sorrir. E os motivos lhe vinham, de muito longe, como um recado amado, um carinho inesperado, um teamo não requisitado. Eles lhe surgiam como a certeza de que o sol voltaria a brilhar, apesar de toda a chuva. Ela sabia que ele, seu sol, voltaria. Sabia que mesmo as 'lestadas' mais fortes não duram para sempre. Precisava apenas de um abraço, de um raio de sol, para que pudesse recompor os cabelos, tirar o mofo dos sapatos, pendurar as roupas no varal. Os dias de sol voltariam, e eram os abraços da voz amada que lhe asseguravam isso.

Ela sorria, confiante, a caminhava de volta para a rua, a sentar-se sob o sol, com suas velhas e costumeiras metáforas.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Para um pouco de paz

Ele falou-me, outro dia, das dores do coração. Me contou o quanto sofria, dos tantos nãos recebidos.
Ela me disse, em separado, que não queria viver assim, não havia razão; disse que o amor só lhe feria e das tantas vezes que disse não.

Enquanto os ouvia, chorando em mesas distintas de bares distantes, eu pensava no tempo em que os conhecera, e sabia que não voltaria mais. Pensava que alguma vez, não muito tempo atrás, aquelas pessoas tinham sido um Dois; era sempre assim, o Ele vinha com Ela, e Ela não cabia sem Ele. Hoje não mais, agora eram dois Um, Ela que não pensa mais n'Ele (mentia, sim, ela nisso mentia), Ele que não precisa mais d'Ela (e ainda pensava que enganava alguém com isso).

Os olhos vermelhos, baixos, esquivos, fugiam de mim para que eu não pudesse ver o que dentro deles havia. Como se para isso alguém precisasse de fato olhar dentro de algum daqueles olhos: ela estava nua, ali em frente, em meio a todos. Ele era mais transparente e límpido do que o velho e sujo copo de cerveja que tínhamos à nossa frente.

Era claro que se amavam. Era claro que tinham medo. Era claro que se tinham perdido, numa das voltas do caminho, e os pássaros haviam comido a leve trilha de pão que maria havia deixado, e joão estava seguindo.
Ele dizia que ela não o ouvia, ela teimava que ele é que não queria escutar.


Eu sorria, sabendo antever nela a fala dele, e nele o discurso dela. Já não esperavam mais nada um do outro, e foi aí que lhes disse que o erro era este: deviam, pois, justamente esperar tudo, sabendo que seriam frustrados, mas, ainda sim, esperar tudo. E deviam então perdoar antecipadamente a falha do outro, pois já sabiam-se humanos, e falíveis como tais. Deveriam esperar e perdoar, mas sim, tinham que se reservar o direito de sofrer e se magoar, a cada tombo levado. Dizia-lhes isso, repetia a ela o que dissera a ele, e a ele o que argumentara com ela, torcendo para que seus corações encontrassem descanso, na morada que fosse.


E então partiram: Deixei-o a caminhar bêbado, tropeçando em seus pensamentos; Ela caía, absorta em suas profundas dores. Aquela noite dormiriam, profundamente e sem sonhos, um nos braços do outro, ainda que em camas diferentes. Naquela noite, sim, haveriam de se dar, ainda que só um tantinho, um pouco de paz.

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Nota importante: Este texto é ficcional. Escrevi essas palavras pensando nas dores e crises que ouço e vivo diariamente, mas nenhum fato concreto me levou a escrevê-lo. Ouvi de alguém que só tenho amigo fudido, então digamos que escrevi esse texto pensando em todos eles e em ninguém em particular. Por favor, não leiam nas entrelinhas. É só um texto e nada mais.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O mundo diante da TPM

Talvez seja estranho começar o ano com um texto sobre tpm, mas a verdade é que a mãe natureza não me deu muita alternativa. Nem bem 2010 chegou, lá vem ela, a cruel algoz dos relacionamentos. Três letras, sete fonemas; Tê-pê-eme. Nenhuma outra síndrome afeta tantas pessoas, famílias e lares mundo afora e com tamanha recorrência quanto a maldita tensão pré menstrual.

Se pararmos pra pensar, os números são assustadores: 49,75% da população mundial é do sexo feminino, ou seja, o mundo comporta hoje algo em torno de 3.428.196.000 mulheres. Dessas, mais de 75% dizem sofrer algum sintoma relacionado à chegada da menstruação, o que dá  mais ou menos dois bilhões e seiscentos milhões de criaturas. É muita gente! É como se a  China e a Índia inteiras acordassem de mau humor. E se dividirmos esse número de mulheres pelo número de dias do ano, o negócio fica desumano: são 7043836 mulheres com tpm a cada dia, ou seja, a população total de Hong Kong. Claro, há que se desconsiderar a porcentagem de mulheres que não se encontra em idade fértil, mas a idéia em si já é bastante assustadora, ainda mais se pensaramos que, junto com elas sofrem outros tantos milhões de homens, os maridos, pais irmãos e namorados dessas mulheres.

Desconfio que a tpm seja o maior motivo de discórdia no mundo; Ouso supor que milhares das guerras já  vistas no decorrer da história foram causadas, em algum ponto, por conta da tpm; A rainha estava rosnando pra sombra, deu uma resposta atravessada pro rei, na frente dos vassalos, e ele, com seu orgulho e hombridade feridos, resolveu descontar no pobre emissário do reino vizinho, que levava um aviso de aumento nos impostos de importação. Pronto! Lá se iam umas tantas vidas desperdiçadas.

Os homens não conseguem entender esse período meio viúva negra, pelo qual as mulheres passam todos os meses (excetuando-se alguns poucos, que afirmam também sofrer desse mal - mas disso tenho lá minhas dúvidas). E é até engraçado quando, após uma briga por um motivo (aparentemente) estúpido, elas se descabelam e debulham em lágrimas, e então eles se dão conta do que está acontecendo: "mas é tpm, outra vez?!?!?!?"

Sei que já foram muitas as tentativas de explicar didaticamente para vocês, sortudos homens, o que é esse período negro. E sei também que vocês até tentam, mas no fundo não entendem é nada. Mas vamos lá, mais uma vez, alguns parâmetros desse universo (majoritariamente) feminino.

Imagine que você tem um útero - tá, esquece, vocês não sabem o que é ter um útero, pulemos essa parte.
Então imagine o seguinte: você está lá, levando sua vidinha normalmente. Daí, um belo dia, sua barriga começa a inchar, não muito, mas você nota. só a parte de baixo, aquela que fica no cós da calça. desagradável, mas fazer o quê? Depois são os seios: incham, ficam doloridos; tem vezes que até o contato da camiseta roçando na pele é de matar, imagina aquela mãozona cheia de dedos do marido/namorado/ficante/amante/homem que te ajuda. A gente reclama, vocês não entendem.

Depois, ainda tem a pele, aquela que você lava com sabonete especial, passa hidratante sem óleo, filtro solar, maquiagem etc e tal, enfim, aquela pele que você dedica tanto esforço pra manter saudável começa a ficar um lixo! Num desses dias você acorda com aquela megaespinha, que mais parece um alien plantado bem no meio da testa.  O cabelo fica um nojo, e você começa a se achar a esposa do Tiririca.

Não bastasse tudo isso, o humor, que vocês insistem em reclamar, fica absolutamente incontrolável. Ou alguém ainda acha que a gente faz de propósito, porque ADORA dar bafão em público, como ser dispensada de uma reunião pelo chefe, após ouvir dele que você não deveria ter se atrasado naquele dia, porque ele não aguenta olhar pra sua cara vermelha e molhada de lágrimas? (sim, eu já passei por isso, mas a minha sorte é que a minha chefe era muito gente fina e, sendo mulher, entendeu bem o que eu estava passando) Ou, ainda, que nos DELEITAMOS com ouvir de vocês que "hoje você está insuportável", frase invariavelmente seguida da famosa "todo mês é a mesma coisa"?

Não, meninos, a gente odeia tudo isso. E se é ruim pra vocês, imagina pra gente. Diz a história que, na época de Abraão, os judeus eram bem espertos e tinham o costume de respeitar suas mulheres nesse período. Eram  os dias da Tenda vermelha, quando todas a mulheres da tribo se enfiavam na barraca de cor bem simbólica, cheia de guloseimas, e lá ficavam, todas juntas. E só saíam depois da última gota de sangue. Eram dias em que não mulher trabalhava, e os homens tinham que tomar conta da vida cotidiana, mas pelo menos não tinham que aturar suas esposas e filhas chorando pelos cantos. O que acontecia lá dentro era segredo e só pertencia ao universo feminino, como tudo que se relaciona à essa etapa mensal, e numa espécie de irmandade: da esposa do chefe à escrava mais pobre, todas partilhava a mesma tenda, naquele período.

Seria bom, né?

Mas, como não temos isso hoje em dia, resta a vocês, meninos, um mundo de paciência e três conselhos que, se seguidos são verdadeiros atos de amor: Primeiro, mantenham certa distância, suficiente para deixar-nos quietas, mas não tanta que nos deixe desamparadas. Como não temos nossas "irmãs", frequentemente precisamos do carinho e atenção de vocês.

Segundo, lembrem-se: não é pessoal. A maioria das barbaridades faladas por  uma mulher em tpm não é verdadeira e, se bobear, ela nem se lembrará daquilo que falou numa crise de choro/raiva, então, relevem. É  quase como se um outro ser habitasse naquele corpo, naquele período. Você não gosta do inquilino? Nós também não, mas o nosso contrato com ele é vitalício...


Terceiro, contem! Arrumem um calendário e anotem, nos primeiros meses, as datas das crises "tpmáticas". Depois disso, percebam, o ciclo se repete a cada mês, é só contar! Assim vocês já saberão que o período se aproxima (e não são pegos todo mês de surpresa) e evitam que a gente ouça aquela maldita frase de novo: "Mas como? jáááá?"

Quarto (é, eram só três, mas me lembrei de mais um, que é essencial): Calma, vai passar!



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Como se fosse a primavera



De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril
(chico buarque e pablo milanés)


Depois escrevo algo decente, hoje tenho sono e essa canção me ecoa há horas na cabeça. Vai ver é porque é do Chico. Meu caso de amor com as músicas do Chico é algo espiritual, mas outra hora explico. 2009 ainda vai ganhar um último post, acho. Caso não, um boa passagem, nos vemos ano que vem.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

São tantas as emoções...



que me afetam nesse instante mal consigo escrever. A maior delas, aquela que me domina, pra variar, é a ansiedade. Por favor, ano novo, traga de volta um pouco de calma à minha vida...


Enquanto isso, explico minha teoria acerca do amor e o egoísmo. Muitos hão de discordar. Mas, pra mim, faz todo o sentido.


E o princípio da minha tese é: o amor é o sentimento mais egoísta que existe e por isso apodera-se das pessoas mais generosas. 


Vamos às bases disso: 




  • A)   Disse Jesus Cristo (é, aquele cabeludo de olhos azuis, um verdadeiro milagre divino, isso ter nascido na palestina com cara de príncipe encantado) em Mateus 22: 37-39: 




“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo"


 Certo, não sou católica, nem cristã, não fui sequer batizada, mas a verdade é que isso não importa agora. Os dez mandamentos são, antes de mais nada, um código de conduta, uma espécie de constituição ou código civil da época. Buscavam, primeiramente, pautar o comportamento humano e permitir a existência de convívio social. Mas o que realmente interessa desse excerto é a última frase: Amarás o próximo como a ti mesmo.


Desde sempre ouço essa frase ser usada no intuito de convencer os homens (e mulheres) a ter respeito aos outros seres (humanos ou não, acreditem, já a vi ser usada até para justificar a vida de galinhas), pois todos merecem respeito. Minha mãe, entretanto, um dia me mostrou que a passagem esconde algo a mais: Ama ao próximo como amas a ti mesmo, ou seja, antes de amar ao próximo, é preciso amar a si mesmo.




O que isso prova? Por enquanto, nada. Apenas colocou mais lenha na minha fogueira. Sigamos, pois.




  • B)   Pergunte a qualquer pessoa, mas qualquer uma mesmo, pergunte ao sorveteiro que vai passando ali na rua, à caixa do supermercado, ao psicólogo ou ao padre: Quando você ama alguém (qualquer tipo de amor, de mãe, irmão, amante...) o que é que mais deseja para aquela pessoa? A resposta, noventa e nove por cento das vezes, há de ser: "desejo que ela seja feliz", ou "desejo fazê-la feliz".


Certo, agora reflita comigo, A+B = C. Se,
A) nosso primeiro amor, antes de amar ao próximo, é o amor que temos por nós mesmos;
B) quando amamos alguém, queremos que ele seja feliz; Então isso dá:
C) o que mais queremos para nós mesmos, é nos fazer felizes. 


Ta-dah!


Certo, você vai dizer, até aí nada de novo. Não era necessário todo esse caminho pra perceber isso. De fato, não era. Mas é agora que vem o pulo do gato. Prometo que vale a pena, continue lendo.


Daí que o fulaninho se apaixonou pela mocinha do cinema. Ela também se apaixonou por ele, e os dois começaram a namorar. Tudo muito lindo, e a paixão do fulaninho se transformou em amor. E então fulaninho tinha dois amores em sua vida: o amor pela mocinha e o amor por ele mesmo. O que ele mais deseja para a mocinha? fazê-la feliz, não é? Ótimo, agora alguém percebe o porquê de ele querer fazer a outra pessoa feliz? Simples, meus caros, porque essa é a única maneira dele, pessoa apaixonada, ser feliz! Ele sofre de um conflito de interesses (e por esse motivo o amor deveria ser impedido de advogar nos tribunais da vida) uma vez que a sua felicidade depende da felicidade da mocinha. 


(Um aparte: Entenda, leitor, que jamais disse que a felicidade depende de se ter outra pessoa: quando alguém está bem só, está amando à pessoa fundamental: ele mesmo).


Amar é, em minha opinião, co-sentir o que o ser amado sente: a tristeza do outro é também a sua, da mesma forma que a felicidade. Quando não se ama alguém, você pode sentir pena ou compaixão pela tristeza alheia, mas dificilmente sofrerás por isso. É como quando morre o cachorro do vizinho: você acha chato, manda um "sinto muito", e continua os afazeres do dia. Agora, amar, não. Se escurece na vida da pessoa amada, o sol vai embora da sua vida também. Se a felicidade volta, você também volta a sorrir. Isso pelo simples motivo de que vocês compartilham os sentimentos e você ama aquela pessoa da mesma forma que você ama a si mesmo.


Então, desta forma, você não quer a tristeza do outro, porque isso causa a sua tristeza! Quer sentimento mais egoísta que esse? Daí que, em nome do "amor", as pessoas fazem de tudo pela pessoa amada: abrem mão de quase tudo, se necessário for. Tornam-se generosas.


Balela!


Tudo que as pessoas fazem pra deixar o outro feliz tem o único propósito de fazer elas mesmas felizes. O único problema: elas não precebem isso, e não fazem por mal. Diria, até, que fazem com a mais bonita das intenções. Fomos ensinados que amar é ceder, ser generoso, é se doar a pessoa amada.


Não, meu caro leitor, o amor é traiçoeiro; de uma estranha forma, amar é a arte de ser altruísta porque se está dominado aquele que é, de todos os sentimentos, o mais egoísta.








Nota, apenas para refletir: também nos ensinaram que deus nos ama, a cada um de nós, e que seu amor é infinito. Pois bem, releia a primeira parte do mandamento da bíblia, logo acima daquela comentada no texto. É que ela diz: ame ao teu deus, o senhor, acima de todas as coisas...










terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Felicidades II

Recebi, de meu amigo Jonas Tenfen, o seguinte comentário acerca do meu blog: "Credo, que deprimente!"
Descontada a sutileza que lhe é peculiar, o Jonas é um amigo muito querido, inteligente e pelo qual tenho muito respeito. Até porque, existe, em mim, a certeza de que seu comentário é honesto, apesar da aparente falta de tato com que foi feito.
Entendo-o, na verdade, e explico-me aqui; Jonas, meu blog é deprimente porque na maior parte das vezes escrevo quando estou deprimida, triste, agoniada... e é isso que transparece nos textos. Prometi-lhe, entretanto, que escreveria algo feliz. Promessa feita, promessa devida. Vejamos se consigo cumpri-la.
Ah, se não for dessa vez, Jonas, tenha a certeza de que continuarei tentando: Devo, não nego, pago quando puder.

Felicidades

Encontrei, ontem, um pedacinho de papel amarrotado na calçada. Não era diferente dos demais, que encontramos diariamente, em todas as calçadas de todas as cidades. Não seria o primeiro, tampouco o último, mas por uma razão, aquela bolinha amarrotada, mal-feita até, chamara minha atenção enquanto caminhava pela rua, cabisbaixa e encolhida pelo vento frio que soprava.

Não ia pela rua por nenhum motivo especial; em verdade, passava por ali todos os dias, ou quase, a caminho de casa. Nenhum sentimento me dominava, o vento soprava gelado demais para isso. Tinha um pouco de pressa em fugir do frio, mas não tanta que não pudesse prestar atenção nas coisas que se passavam à minha volta.

Quando me deparei com a bolinha, feita de um papel amarelo, o que me atraiu foi o fato de que, apesar do vento que soprava, provocando nas folhas caídas uma espécie de balé moderno, o pequeno amontoado de celulose apenas tremia no chão, como se atraída à terra por um elástico ou ímã. Ao pensar nisso, ri-me, lembrando que fora assim que meu pai me explicara a ação da gravidade e, sem que me desse conta murmurei rindo, ah, mas essa gravidade está mais poderosa do que eu supunha! Em seguida, abaixei-me para apanhar a pequena massa amarela, olhando à minha volta à procura de uma lata de lixo. Enquanto caminhava em direção ao lixeiro abri aquele papel. Era o fim de um bilhete, como faziam supor as bordas superior e esquerda rasgadas, mas trazia apenas uma palavra legível, grafada em caneta azul, com letras bonitas, diria até que femininas: "Felicidade". Notava-se também que havia um S ao final da palavra, mas uma mancha qualquer o havia coberto.

Foi impossível não me perguntar por que motivo alguém rasgaria um bilhete de felicitações. Um amante magoado, talvez, irritado com a ironia da autora - já assumia que a pessoa que escrevera aquela palavra era uma mulher - da pergunta, ou talvez encontrava-se com raiva, por ter sido abandonado tempos depois de ter recebido aquele bilhete. Ao mesmo tempo, seguia eu pensando, não faz nenhum sentido uma mulher desejar felicidades a seu namorado; então talvez fosse um cartão de aniversário. A folha comum, fina, em que tinha sido escrito o bilhete dizia que não. Ninguém escreve "bilhetes" de aniversário, muito menos em folha sulfite.

O "mistério" que se havia instaurado, a partir daquele tolo pedaço de papel fez-me esquecer da lata de lixo, que buscava para jogar a pequena bola amarrotada. De fato, esquecera-me do frio, do vento e suas folhas dançantes. Andava, agora, vagarosamente, pensativa, alegre até. Aquele pedacinho de bilhete havia aberto em mim um novo universo. Tinha consciência da bobagem disto tudo, mas de alguma forma, me parecia triste demais a idéia de encontrar a Felicidade ali, amarrotada e jogada numa calçada qualquer e, tendo outras possibilidades, jogá-la fora, no lixeiro mais próximo.

Não, pensei comigo, não farei isso. Nesse dia, pela primeira vez na vida, levei, de fato, a Felicidade pra casa. Algumas pessoas guardam uma folha de louro na carteira, outras levam uma cruz pendurada no pescoço, outras, ainda, tem uma figa pendurada retrovisor do carro. Entre todas essas pessoas, eu duvido muito que algum dia a felicidade tenha se parado em frente, toda amarrotada, suja e abandonada. E, se ela o fez, duvido ainda mais que essas mesmas pessoas lhe tenham dado o mínimo de atenção. Digo isso com tanta certeza pois, caso o tivessem feito, não necessitariam de tantos patuás: tudo o que realmente importa já estaria sempre com elas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

E da canção fez-se o espanto: Mais vinho pra mim

(Para David e Jean)

Lembro-me da primeira vez que ouvi "Mais vinho pra mim"; era uma tarde ensolarada de abril, reuníamos nós, os amigos, em casa de Jean e Aninha, para celebrar a última reunião daquele grupo, pelo menos pelos próximos meses. Muita coisa mudou de lá pra cá.

Naquela tarde Jean apresentou-nos a canção, rindo, e dizia que ela era, de alguma forma, um discurso que eu haveria de escutar. Lembro que tive a sensação de que aquela canção era a versão masculina de "Olhos nos olhos", uma canção que procura magoar e esconder a falta que o par lhe faz. Achei a canção lindíssima, talvez uma das mais bonitas já composta pelo Jean. Uma maldade elegante. Uma mágoa dolorida, pungente. Pensei comigo que não desejava nunca que a previsão zombeteira do Jean se tornasse realidade.

Passaram-se os meses. Muitos deles. Os jantares daquele grupo não mais aconteceram, e eu ouvi, dito de outra forma, aquilo que a canção dizia. Merecidamente, convém dizer. Mas isso não vem ao caso, não agora.
David estava lá, naquele dia, mas não tenho certeza de que a canção também era nova para ele. O que posso dizer, com segurança, é que a canção o tocou profundamente.

David, vale lembrar, é uma figura encantadora. De uma coragem surpreendente, isso logo se nota, e depois se comprova. Mal conheceu Isaac Varzim (aquele, do Superpose) e passou a noite inteira tirando sarro dele, simplesmente porque o cara é gaúcho (arrisco dizer que é pelotense, se bem me lembro das piadas feitas por Don Mattos).

Mas enfim, dizia eu que a canção tocou o David. Tocou tanto que ela cresceu, cresceu e virou romance. Obra inédita, que acabo de terminar de ler. Acabo, agorinha mesmo, de ler as últimas linhas, iniciadas seis horas atrás. O texto não é longo (86 páginas) mas confesso que levei mais tempo por conta da leitura ter sido realizada no computador, o que me obrigou a várias pausas para descansar a vista. Teria levado menos tempo, a julgar minha empolgação.

David narra uma linda história de amor. E de desamor. Um amor maduro, de um homem viúvo que, aos setenta e quatro anos, redescobre a vida. O personagem principal não tem nome, ele é sempre tratado por "meu bem", "meu caro", "meu querido" por sua musa, essa sim nomeada, Ivone. A trama é envolvente, de uma delicadeza ímpar, esmiuçada com inteligência e beleza e, nesse último ponto, difere violentamente dos outros textos do David que li, tanto em seu blog quanto na antiga coluna que assinava no site Tô Puto. Os outros textos, em sua grande maioria, eram muitíssimo bem estruturados, mas versavam sobre humor, retratavam situações corriqueiras, infames, divertidamente incorretas até.

Mais vinho pra mim, não. É um texto poético, apaixonante. Tem sim seus momentos de humor - como a passagem em que o autor toma conta do texto, inconformado com o rebaixamento do seu querido Figueirense, "time mais tradicional e de maior torcida da cidade", ao mesmo tempo em que o Avaí, rival "de menor expressão, praticamente desconhecido além das fronteiras do estado" subia à elite do futebol brasileiro, e David deixa escapar um "Que merda", para logo em seguida retomar o fio da meada, quase nos fazendo crer que aquele "que merda" não era o seu desabafo de torcedor, mas a irritação do protagonista, com outra coisa qualquer.

Em outros momentos, o texto me levou às lágrimas. Sou chorona confessa, todo mundo sabe disso, mas não foram muitos os textos que conseguiram me emocionar assim. O desespero de Ivone diante da reação de surpresa de seu "querido", mostrando o quanto estavam completamente alheios às necessidades um do outro, em páginas distintas do que supunham ser a mesma história de amor (e que, a meu ver, lhes é drasticamente revelado o contrário nessa passagem) foi tão pungente que não contive o choro. E desse desespero nasceu o ressentimento, e do ressentimento fez-se a mágoa, e da mágoa fez-se o rancor (qualquer semelhança com o Soneto da separação, do Vinícius, não é mera coincidência). O mesmo velho rabugento do início do texto, lindamente transformado em um jovem apaixonado e inocente no decorrer da trama, transforma-se novamente em um homem seco, oco, ainda mais cruel do que o início poderia prever.

Em resumo, poderia ficar horas aqui falando sobre aspectos técnicos do texto, do brilhante uso do discurso direto livre, das excelentes intervenções do narrador, etc etc (afinal, a pessoa se forma em letras pra alguma coisa, não é?) mas acho que realmente não vem ao caso. O texto é bom sim, e é bom porque fala na alma da gente.

Torço para que ele consiga/decida/encontre meios para publicar o romance. O cara conseguiu me fazer ler duas páginas de uma receita de massa com camarão no meio do texto, explicada nos mínimos detalhes (pra quem não sabe, eu não engulo nada que venha do mar, por nenhum motivo outro que não seja o fato de eu detestar o cheiro, gosto, textura desses animaizinhos), com o interesse dos apaixonados. O mínimo que posso dizer depois disso, com perdão das palavras, é que ele é foda.

Parabéns Jean pela linda canção, e pela inspiração. Parabéns David, por conseguir enxergar nesses versos uma história complexa e cruel, e mais ainda por haver transformado-os num romance único, inteiro em sua existência. E obrigada pelo privilégio.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Samba do adeus

Vai, e leve esse anel, para um novo amor.
Vai, e leve teus trapos, não volte mais.
Vai, e leve tudo que é seu, não deixe rastros.
Vai, e leve teu corpo, não deixe nem sombra.
Vai, e leve teu cheiro, que os lençóis que ficarem eu vou queimar.
Vai, e leve tua alma, mas deixe meus restos aqui.

Minhas lembranças eu vou doar,
Pois em leilão não faria vintém,
Há gente precisada, sabes bem,
Há gente buscando por um amor.

A vida que tive contigo amor
Foi ilusão, só ilusão, foi
Carta marcada, num baralho velho
Foi samba rimado por amador.

Foi bonito sim, como um versinho
De criança inocente, amor-com-dor
Foi coisa sonhada, utopia
Uma fantasia que não convenceu.

Agora vai, levante daí,
Junta tuas coisas e deixe-me só
Que eu vou guardar meu coração
Pra outro momento que rime melhor

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texto antigo, lá de 2006. achei enquanto limpava uns emails velhos do yahoo. prova de que não consigo fazer rima.

sábado, 26 de dezembro de 2009

A flor mais grande do mundo

escrito e narrado por Saramago:






ADENDO (em 27/12/2009) - Coincidências acontecem: depois de postar esse link aqui achei o mesmo vídeo no blog do querido Don (David) Mattos. É, como ele mesmo disse nos comentários aí embaixo, o primeiro post do blog dele. Sintonia Fina é outra história!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Coisas de tia velha

É simplesmente horrível quando você percebe que se transformou numa tia velha. Igualzinha àquelas que você odiava ir visitar quando era criança, e a sua mãe insistia que família é família, agora vamos que eu não tenho o dia inteiro e aproveita que eu to calma. Então você ia, à contragosto e, na melhor das hipóteses, se calhasse de estar de ótimo humor, forçava um sorriso aos cumprimentos e gracejos da tal tia, que, invariavelmente, seguiam o esquema:

A) Nossa, como você tinha crescido! B) parecia que tinha sido ontem a visita à maternidade, quando você nasceu! C) meu deus, mas já fazia tanto tempo assim? D) era todo esse tempo mesmo, porque foi antes do fulano morrer, coitado; E) a conversa descambava pro assunto de falecidos e casamentos, e você estava, enfim, dispensada da suas obrigações familiares, podendo se atracar na mesa de doces (toda tia velha que se preze tem uma mesa de doces - ou um baleiro - que toda criança precisa atacar sorrateiramente pra não ganhar uns beliscões da mãe, ou, no meu caso, um olhar terrível que dizia "pára com isso já ou sua bunda vai ficar quente antes mesmo de chegar no carro") Mas enfim, dizia eu, é horrível quando você percebe que se transformou numa tia velha. E isso tem acontecido cada vez com mais frequência.

Semana passada, por exemplo, o sobrinho da minha irmã apareceu aqui em casa; Há exatos seis anos que eu não via o moleque, mas ele continua igualzinho, no alto dos seus 10 anos. Nem muito mais alto o menino não está - mentira, ele deve ter o dobro do tamanho antigo, mas meus parâmetros são meio injustos, o que explica a idéia de que ele não mudou muito, do meu ponto de vista "idoso".

Daí que olhei para ele e o cumprimentei como se nenhum tempo tivesse se passado entre as duas visões: "Oi, Mateus, tudo bom?", ao que ele me olhou espantado, com aquela cara de "como é que essa dona aí sabe o meu nome?". Eu, percebendo o embaraço dele insisti em manter a conversação mandando um "você lembra de mim?" - PÉÉÉÉÉÉ, soou a primeira chamada para o cargo de tia velha - e ele, honestamente e sem se preocupar com a conversação, respondeu com um "Eu não!" - PÉÉÉÉ, soou a segunda chamada.
Não contente com a humilhação, mas sem me dar conta do desastre "auto-estímico" que eu armava contra mim mesma, prossegui: "Eu sou irmã da sua tia, conheci você há muito tempo, quando você era pequeno..." PRONTO! Estava armado meu circo! O pobre menino me olhou com aquela cara de "ah é? puxa, que legal, tia" e não disse nada, só sorriu um sorriso tão amarelo que fez cair a ficha: a idade tinha chegado. Já podia arrumar um baleiro, pois estava mais do que óbvio o meu papel na situação.
Minha irmã, vendo a cena, não perdoou: é, fia, você tá mesmo uma tia. E daquelas bem velhas!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Paixões desgastadas ou cenas de uma vida que não minha 1

Prólogo:
uma residência qualquer, 3 horas de uma tarde qualquer de domingo. uma mulher qualquer fita o telefone com uma expressão preocupada e irritada, enquanto muda insistentemente o canal da televisão que ela não assiste.

Cena 1:
(telefone toca)
(ela)-Alô?
(ele)-Alô! Oi meu bem, sou eu.
(ela)-Francisco? Onde você andava?
(ele)-Como assim? Eu te disse que ia passar uns dias na casa da Maria!
(ela)-Como assim, "passar uns dias na casa da Maria"? Que história é essa?
(ele)-Ué, querida, eu te falei, lembra? Naquela noite, voltando do Bar do Tonho...
(ela)-Francisco, tudo bem que eu tinha bebido bastante, mas posso jurar que você não me disse nada! E mesmo assim, que história é essa? O que é que você está fazendo na casa duma safada?
(ele)-Ei! você ficou louca? bebeu de novo? Ela tá mal por conta do divórcio e me pediu um ombro!
(ela)-Um ombro, sei! Ela quer é te pegar de jeito! Vagabunda!
(ele)-Você tá drogada? Como é que pode falar assim da minha irmã? De fato, você está louca!
(ela)-Francisco Pereira de Souza, você não tem nenhuma irmã chamada Maria, a menos que o Pablo tenha virado travesti e mudado de nome!
(ele)-Você me chamou de quê?
(ela)-Não chamei de nada, mas deveria ter chamado. Cara-de-pau, salafrário...
(ele)-Não, pára! você me chamou de Francisco Pereira de Souza. Esse não é meu nome! Eu sou Francisco Antunes... Quem tá falando? é a Ana?
(ela)-Que Ana? É a Paula...
(ele)-...
(ela)-...
(ele)-É do 21346785?
(ela)-Não, é 23146785.
(ele)-Desculpe, foi engano.

Epílogo:
uma residência qualquer, 3 horas e 5 minutos de uma tarde qualquer de domingo. uma mulher qualquer fita o telefone com uma expressão chocada e confusa, enquanto muda insistentemente o canal da televisão que ela não assiste.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Lista de Coisas Brancas - coisas que podem ser, que parecem ou que eram brancas

(De Raquel Stolf)



arroz. açúcar. nuvem. sal. isopor. caderno novo. tontura. neve. pérola. céu nublado. sussurro. borracha de apagar. concha. minha geladeira. cabelo branco. vermes. pasta dental. eco. naftalina. dia de sol forte na praia. ovos. morte. tinta de parede. vômito. guarda-pó. cocaína. maionese. roupa de médico e dentista. larva de inseto. dados. pasta d’água. ramela. papel. nervo. página. palmito. branco do olho. máscara para pó. quando se esquece de repente. mingau de aveia. dor de cabeça. melão aberto. tempo que não passa. papel toalha. dentro do pequi. sabão de coco. caneta quando falha. vôo. pedriscos de aquário. farinha de trigo. alho. dentro da barata. polpa de fruta-do-conde. franqueza. ossos. quase no fim de alguma coisa. metade da zebra. pelicano. glândula parótida. anseio. sofá. barba. arrepio. miolo de pão branco. sêmen. dentro da semente da fruta. esqueleto. rabo de macaco comodo. guardanapo. couve-flor. insônia. sulfato de bário. cimento branco. iceberg. dentro da maçã. falha. travesseiro. gaivota adulta. urso polar. máquina de lavar roupa. dentro da jabuticaba. magia branca. forno microondas. leveza. roupa de lutador de sumô. torre de marfim. entre a polpa da laranja e a casca. cabra-das-neves. flor da figueira-do-inferno. cegueira segundo saramago. quando a unha cresce. papel higiênico. leite. neblina. pus. dentro do travesseiro de penas. faixa de pedestres. saudade. instante antes do desmaio. saco de leite tipo a, b e c. ovos de siba. legenda de filme. shampoo. varinha de condão. plâncton. cano de esgoto. farinha de mandioca. pólo sul. mosquiteiro. nudez. copo plástico descartável. interruptor de luz. glândula mamária. cursor. talo de couve-chinesa. desejo. lacre do vidro de requeijão. pólo norte. borboleta. bola de golfe. gás lacrimogêneo. elefante branco. buda. barriga de pingüim. chuvisco de tv fora do ar. flor de heléboro. creme para cabelo. atrás da foto. algodão. paz. secreção nasal. vestido de noiva. pele de quem não toma sol. fumaça de cigarro. sabonete. chocolate branco. ovo de piolho. creme para espinhas. flocos de arroz. talco. bolor de pão. iglu. caspa. flash. nabo. areia da praia. cheque em branco. dente de leite. prédios públicos. leite de magnésia. filhote de urubu. gaze. avião. flor de feijão. coruja-das-neves. dunas. substância gelatinosa de ovos de rã. mancha de água sanitária. bolo de noiva. pó com antraz. glândula sublingual. deserto. cal. gato branco. pensar demais. protetor solar. espaço entre as linhas escritas. prato de porcelana. horizonte. requeijão. fantasma. gordura vegetal hidrogenada. lençol de hospital. coelhos. salada de repolho cru. saponáceo. luz. nosso carro. estrelas. animais albinos. carneiros. banana descascada. piso do meu banheiro. hóstia. diamante. envelope. espuma de sabão em pó. lua vista da terra. dentro do grão de feijão. sacola plástica de supermercado. cerdas da escova de lavar o vaso sanitário. molho branco. cérebro. sol. manjar de coco. pessoa pálida. parede. comprimido. minha máquina de costura. broto de pinhão. lenço. carne do peixe. atadura. meia soquete. gelo seco. gesso. garça. sagu cru. carne da lagosta. balinha de 2 calorias. felicidade inesperada. saco de algodão. computador quando trava. cadarço de tênis. bola de pingue-pongue. leite materno. cocada. pano de louça. mármore. vela. galinha. poodle. túmulo. anemia. suspiro. filhote de foca. clara em neve. papel fotográfico antes de ser velado. queijo derretido. dente. pomada para assadura. vinho branco. vapor d’ água. ricota. lâmpada fluorescente. rato branco. leucócitos. ruído. bocejo. gêiser. ovos de tarântula. nata. marfim. camisa-de-força. filhote de fragata. álbum branco dos beatles. bolo de queijo. surdez. rabanete descascado. ser o primeiro da fila do banco. esparadrapo. goiaba branca. filhote de águia. fralda descartável. pausa em gravação. ficar de cama. pipoca. gueroba. veneno para pulga. igualdade. flor de cicuta. fita virgem. xícara de porcelana. ovelhas. coisa nova. coisa usada. pedaços da bola de futebol. falta de cálcio. cegonha. vulto. eco. bicarbonato de sódio. vela de barco. absorvente feminino interno e externo. ovos de codorna cozidos. camiseta branca. espuma do mar. doce de polvilho. linho. fim. cavalo. corretivo. camisa de garçom. placa de pvc. fita virgem. champignon. micose. respiração congelada. fundilho de calcinha. ouro branco. alcatraz. flor do café. susto. galinha-da-neve no inverno. etiqueta de roupa. lulu da pomerânia. crânio no encefalograma. ficar sozinha em casa. peça de dominó sem pontos. relâmpago. possibilidade. unicórnio. broto de feijão. ambulância. minha lixeira da cozinha. pétala de margarida. fim de madrugada. cartilagem. rendas. cálcio. tule. zero. coador de café. couro cabeludo. adoçante. cola branca. passagem para outro mundo. filhote de atobá. miolo do coco. múmia. vitiligo. fundo do relógio. raposa-do-ártico. falsidade. gordura de mortadela. casulo de bicho-da-seda. saliva seca. peruca de juiz. amnésia alcoólica. fio de luz. impossibilidade. paina. buraco branco. burburinho. fralda de tecido. palha de milho seca. tudo. nada. raiz de fio de cabelo. filtro de cigarro. faixa branca. teia de aranha. via láctea. filtro de café. passe-partout. começo. fio dental. tubarão branco. cambraia. cola em bastão. alpes. tampa de canetinha. cisne. creme hidratante. fita veda-rosca. vácuo. carta branca. desbotado. casca do ovo de jacaré. bola de vôlei. barriga de arminho. espirro. fundo dos buracos negros. toalha de banho. arroz doce. roupa de pai-de-santo. pétalas de narciso. espuma da cerveja. teclas brancas do piano. listras do uniforme escolar. casulo de borboleta. pedra calcedônia. roupa para ano-novo. bactéria schizophyta. dentro da concha. glândula submandibular. vaso sanitário. seiva da planta pau pelado. espinha de peixe. pó de arroz. velocidade. relógio parado. kimono. saquinho de chá. lírio. espuma de raiva. mosca branca. penugem na roupa. erro de encadernador. jasmim. avalanche. toalha de mesa. samoieda. anã branca. lebre-do-ártico. aspirina adulta. flor copo-de-leite. dia frio com sol. cana-de-açúcar. avental. barata branca. canjica. antúrio indiano. carneiro das montanhas. roll-on do desodorante. veneno para pulga. flor de nenúfar branco. soluço. céu com chuva. massa corrida. etiquetas. silêncio. sono. reflexo. cebola crua. medo. gelo. giz. comida mofada. bandeira branca.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Da arte de fingir.

Fingir é uma arte. Que me perdoem os puristas e os moralistas, mas fingir não é pra qualquer um. Há que se acreditar no fingimento, há que se respirá-lo e jurar sua veracidade, mesmo quando tudo parece apontar na direção contrária. Não se pode admitir o fingimento em hipótese alguma pois, se assim o fizer, perde-se para sempre o benefício da dúvida.

Não, não escreve aqui uma fingidora; minhas artes são precárias, nesse e nos demais campos artísticos: uma flautista débil, poetisa frustrada, narradora ineficiente, cantora sofrível, atriz precária e fingidora medíocre. Como nas demais artes não sou uma exímia executora, e considero-me antes uma "apreciadora" do fingimento alheio.

Os últimos dias, entretanto, têm desafiado meu talento artístico. Como seguir a vida quando tudo que realmente importa parece desabar?

Como levantar, ir à academia, seguir para o trabalho, decorar árvores de natal, comprar presentes, desejar boas festas, atender telefone, falar com clientes, sorrir simpaticamente, ser prestativa e fingir que está tudo bem quando, na verdade o que se sente é que o maestro da sua orquestra se perdeu completamente? Como tecer uma coberta com a sua vida se bem no meio do sossego encontramos um nó muito apertado?

Eu vejo apenas uma possibilidade: combinar a arte do fingimento com a do esquecimento. Esquecimento, sim. Não porque eu queira de fato esquecer, ou melhor não que eu queria fingir que nada aconteceu, eu preciso apenas não lembrar, durante o dia, que o mundo está suspenso por um fio. Preciso do removedor que anule a cola da preocupação, pois não há nada que se possa fazer.

E então eu finjo. Finjo, sim, mas não para os outros: finjo pra mim mesma que está tudo bem. Finjo que não tenho a mão da tristeza apertando meu coração, e que nunca vi esses capítulos do drama em minha vida. Mergulho de cabeça na vida cotidiana e esqueço que o resto está mulambento, e que anoiteceu em mim contra a vontade do dia.

Assim sigo, esperando pelo natal que vai chegar, e torcendo que com ele venha a frase que pretende ser um beijo: desculpe, eu errei.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

nadando só em águas frias



uma hora a gente cansa, tem hipotermia e afunda.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um abraço partido

Sentada, num lugar menos importante, me perco nas conversas alheias. Fantasmas estão em nossas vidas por alguma razão: temos que descobri-la ou viveremos com eles por toda a vida. é uma escolha e, portanto, não há resposta certa. Aprende(re)mos algo com nossos fantasmas? Eu, pessoalmente, não gosto de ver pessoas mortas. São abraços que não se pode dar.
Um trompete numa rua escura entoa uma triste melodia, e me torno parte de um filme de Almodóvar; tragicômico, como são todas as histórias de amor.
Histérica, ainda personagem, caminho apressada, sem rumo certo, buscando apenas fugir das idéias que me atormentam. Corro, gritando em silêncio, e, à esquina, encontro você.

Acordo: o amor é um abraço de sol numa manhã de inverno.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Conto de fada pós moderno

ao Ev.

E então, numa reviravolta alucinante, descobre-se que princesa não é guardada por um dragão, ela era o próprio dragão. Em seguida, percebe-se que a bruxa malvada acabou casando com o mocinho, João comeu Maria num fratricídio hediondo e o sapo-besta-fera virou mosca após beijar a pequena sereia.

Isso aconteceu no dia em que abriram a caixa de pandora e a maldade espalhou-se pelo mundo. A esperança? Não tinham mais. Haviam perdido há anos, numa das tantas mudanças de casa.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

De quando o coração pára de bater

"Um enfarte é definido como uma lesão tecidual isquêmica irreversível, isto é, devida à falta de oxigênio e nutrientes, geralmente associado a um defeito da perfusão sanguínea (oclusão do suprimento arterial ou da drenagem venosa). Esta situação vai levar à morte celular (necrose), a qual vai desencadear uma reação inflamatória local. O infarte mais conhecido é o infarto do miocárdio, ou seja do músculo cardíaco."

Há três dias, ele parou: Confesso que o primeiro dia foi o mais difícil, e não consegui sair da cama. Ontem, fui ao trabalho: sem atestado médico, o chefe não quer nem saber.
Hoje, ainda sem nenhuma notícia nova, nenhuma resposta, ouvia-se apenas o pulsar do vazio e o seu eco. Num ato de desespero, ligo para a emergência:

"Por favor, enviem-me os para-médicos, pra que me ressuscitem um coração partido".